Ciência

A China atrasou a liberação de informações sobre o coronavírus, frustrando a OMS

Ao longo de janeiro, a Organização Mundial da Saúde elogiou publicamente a China pelo que chamou de uma rápida resposta ao novo coronavírus. Ela repetidamente agradeceu ao governo chinês por compartilhar o mapa genético do vírus “imediatamente” e disse que seu trabalho e compromisso com a transparência eram “muito impressionantes, além do que palavras podem descrever”.

Mas a história foi muito diferente nos bastidores: significativos atrasos da China e considerável frustração entre as autoridades da OMS por não obterem as informações necessárias para combater a propagação do vírus, como descobriu a Associated Press.

Apesar dos aplausos, a China, de fato, segurou a liberação do genoma do vírus por mais de uma semana após três diferentes laboratórios do governo terem decodificado completamente a informação. Os rígidos controles de  informação e a concorrência dentro do sistema público de saúde chinês foram os culpados, de acordo com dezenas de entrevistas e documentos internos aos quais tivemos acesso.

Os laboratórios do governo chinês só divulgaram o genoma depois que outro laboratório, passando por cima das autoridades, o publicou em um site de virologistas em 11 de janeiro. Mesmo assim, a China ficou parada por pelo menos mais duas semanas até fornecer à OMS dados detalhados sobre pacientes e casos, de acordo com registros de reuniões internas realizadas pela agência de saúde da ONU ao longo de janeiro — tudo num momento em que o surto poderia ter sido drasticamente reduzido.

O diretor-geral da OMS, Tedros Ghebreyesus, fala durante uma entrevista coletiva em Genebra em março. (Salvatore Di Nolfi/Keystone via AP)

As autoridades da OMS estavam bajulando a China em público porque queriam obter mais informações do governo, sugerem as gravações obtidas pela AP. Internamente, elas se queixaram, durante reuniões na semana de 6 de janeiro, que a China não estava compartilhando dados suficientes para avaliar a eficácia com que o vírus se espalhava entre as pessoas ou o risco que o mesmo representava para o resto do mundo, custando um tempo valioso.

“Estamos trabalhando com informações mínimas”, disse a epidemiologista americana Maria Van Kerkhove, agora líder técnica da OMS para a COVID-19, em uma reunião interna. “Claramente não são suficientes para se fazer um planejamento adequado.”

“Estamos atualmente no estágio em que sim, eles estão nos entregando as informações 15 minutos antes de saírem na CCTV”, disse Gauden Galea, principal autoridade da OMS na China, referindo-se à Televisão Central da China, de propriedade estatal, em outra reunião.

A história por trás da resposta precoce ao vírus vem em um momento em que a agência de saúde da ONU vê o cerco se fechar contra ela e concorda com uma investigação independente sobre como a pandemia foi tratada globalmente. Tendo elogiado repetidamente a resposta chinesa no início da pandemia, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, passou a criticar a OMS nas últimas semanas por supostamente ter feito conluio com a China para esconder a extensão da crise do coronavírus. Ele cortou laços com a organização na sexta-feira, comprometendo os aproximadamente 450 milhões de dólares que os EUA, sendo seu maior doador, dão todos os anos.

Enquanto isso, o presidente chinês Xi Jinping prometeu arrecadar 2 bilhões de dólares nos próximos dois anos para o combate ao coronavírus, alegando que a China sempre forneceu informações à OMS e ao mundo “da maneira mais oportuna”.

As novas informações não apoiam a narrativa dos EUA ou a da China, mas sim retratam uma agência, agora presa no meio, tentando urgentemente solicitar mais dados apesar de sua autoridade limitada. Embora a lei internacional obrigue os países a relatar à OMS informações que possam ter impacto na saúde pública, a agência da ONU não possui poderes de execução e não pode investigar epidemias de forma independente dentro dos países. Em vez disso, deve contar com a cooperação dos Estados membros.

Dr. Gauden Galea, representante da Organização Mundial da Saúde na China, durante uma entrevista nos escritórios da OMS em Pequim. (Foto da AP/Mark Schiefelbein)

As gravações sugerem que, em vez de conspirar com a China, como Trump declarou, a OMS foi mantida no escuro por ela, que apenas forneceu as informações mínimas exigidas pela lei. No entanto, a agência tentou retratar a China da melhor maneira possível, provavelmente como um meio de garantir mais informações. E os especialistas da OMS realmente pensaram que os cientistas chineses haviam feito “um trabalho muito bom” na detecção e decodificação do vírus, apesar da falta de transparência das autoridades chinesas.

Os funcionários da OMS debateram sobre como pressionar a China por sequenciamentos genéticos e dados detalhados de pacientes sem irritar as autoridades, preocupados com a possibilidade de perda de acesso e de cientistas chineses se metendo em problemas. Segundo a lei internacional, a OMS é obrigada a compartilhar rapidamente informações e alertas com os países membros sobre uma crise em evolução. Galea observou que a OMS não pôde atender ao desejo da China de aprovar as informações antes de informá-las aos outros países porque “isso seria desrespeitoso com nossas responsabilidades”.

Na segunda semana de janeiro, o chefe de emergências da OMS, Dr. Michael Ryan, disse aos colegas que era hora de “mudar de marcha” e aplicar mais pressão sobre a China, temendo uma repetição do surto da Síndrome Respiratória Aguda Grave que começou na China em 2002 e matou quase 800 pessoas em todo o mundo.

Michael Ryan, diretor executivo do programa de Emergências de Saúde da Organização Mundial da Saúde, em uma entrevista coletiva em Genebra. (Salvatore Di Nolfi/Keystone via AP)

“Este é exatamente o mesmo cenário, tentativas incessantes de se obter atualizações da China sobre o que está acontecendo”, disse ele. “A OMS mal conseguiu sair daquela com o pescoço intacto, dados os problemas que surgiram em torno da transparência no sul da China”.

Ryan disse que a melhor maneira de “proteger a China” de possíveis ações de outros países seria a OMS fazer sua própria análise independente com dados do governo chinês sobre a possibilidade do vírus se espalhar facilmente entre as pessoas. Ryan também observou que a China não estava cooperando da mesma forma que outros países haviam no passado.

“Isso não aconteceu e não aconteceria no Congo e em outros lugares”, disse ele, provavelmente se referindo ao surto de Ebola que começou por lá em 2018. “Precisamos ver os dados… Isso é absolutamente importante neste momento.”

O atraso na liberação do genoma impediu o reconhecimento de sua disseminação para outros países, juntamente com o desenvolvimento global de testes, medicamentos e vacinas. A falta de dados detalhados dos pacientes também tornou mais difícil determinar a rapidez com que o vírus estava se espalhando – uma questão crítica para detê-lo.

Entre o dia em que o genoma completo foi decodificado por um laboratório do governo em 2 de janeiro e o dia em que a OMS declarou emergência global em 30 de janeiro, o surto se espalhou por um fator de 100 a 200 vezes, de acordo com dados retrospectivos de infecção do Centro de Controle e Prevenção de Doenças Chinês. O vírus já infectou mais de 6 milhões de pessoas em todo o mundo e matou mais de 375.000 [até a publicação da matéria, em 2 de junho de 2020].

“É óbvio que poderíamos ter salvo mais vidas e evitado muitas mortes se a China e a OMS tivessem agido mais rapidamente”, disse Ali Mokdad, professor do Instituto de Métricas e Avaliação em Saúde da Universidade de Washington.

No entanto, Mokdad e outros especialistas também observaram que, se a OMS tivesse confrontado mais firmemente a China, poderia ter desencadeado uma situação ainda pior, com nenhuma informação sequer sendo obtida.

Linha do tempo: 01/12/19 – 30/01/20

Se a OMS tivesse pressionado demais, poderia até ter sido expulsa da China, disse Adam Kamradt-Scott, professor de saúde global da Universidade de Sydney. Mas ele acrescentou que um atraso de apenas alguns dias na liberação de sequências genéticas pode ser crítico em um surto. E observou que, à medida que a falta de transparência de Pequim se torna ainda mais clara, a contínua defesa da China pelo diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, é problemática.

“Isso definitivamente prejudicou a credibilidade da OMS”, disse Kamradt-Scott. “Ele foi longe demais? Penso que a evidência disso é clara… levou a tantas perguntas sobre a relação entre a China e a OMS. Esse talvez seja um conto de advertência.”

A OMS e seus funcionários mencionados nesta reportagem se recusaram a responder a perguntas feitas pela Associated Press sem as transcrições em áudio ou por escrito das reuniões gravadas, cujas quais a AP, a fim de proteger suas fontes, não pôde fornecer.

“Nossa liderança e nossa equipe trabalharam dia e noite em conformidade com as regras e regulamentos da organização para apoiar e compartilhar informações com todos os Estados Membros igualmente, e se engajar em conversas francas e diretas com governos de todos os níveis”, disse uma declaração da OMS.

A Comissão Nacional de Saúde da China e o Ministério das Relações Exteriores não fizeram comentários. Mas nos últimos meses, a China defendeu repetidamente suas ações, e muitos outros países – incluindo os EUA – responderam ao vírus com atrasos ainda mais longos de semanas e até meses.

“Desde o início do surto, temos compartilhado continuamente informações sobre a epidemia com a OMS e a comunidade internacional de maneira aberta, transparente e responsável”, disse Li Mingzhu, funcionário do Departamento Internacional da Comissão Nacional de Saúde, em uma conferência de imprensa em 15 de maio.

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A corrida para encontrar o mapa genético do vírus começou no final de dezembro, segundo a história que se desenrola em entrevistas, documentos e gravações da OMS. Foi quando os médicos de Wuhan notaram grupos misteriosos de pacientes com febre e problemas respiratórios que não estavam melhorando com o tratamento padrão da gripe. Procurando respostas, eles enviaram amostras dos pacientes para laboratórios comerciais.

Em 27 de dezembro, um laboratório, a Vision Medicals, reuniu a maior parte do genoma de um novo coronavírus com impressionantes semelhanças com a SARS. A Vision Medicals compartilhou seus dados com funcionários de Wuhan e com a Academia Chinesa de Ciências Médicas, conforme relatado primeiro pela publicação financeira chinesa Caixin e confirmado de forma independente pela AP.

Em 30 de dezembro, as autoridades de saúde de Wuhan emitiram avisos internos, posteriormente vazados nas mídias sociais, alertando sobre essa pneumonia incomum. Naquela noite, Shi Zhengli, uma especialista em coronavírus do Instituto de Virologia de Wuhan, famosa por ter rastreado o vírus da SARS até uma caverna de morcegos, foi alertada sobre a nova doença, segundo uma entrevista à Scientific American. Shi pegou o primeiro trem de uma conferência em Xangai de volta a Wuhan.

Shi Zhengli trabalha com outros pesquisadores em um laboratório no Instituto de Virologia de Wuhan. (Chinatopix via AP)

No dia seguinte, o diretor do Centro Chinês Para Controle e Prevenção de Doenças (CDC chinês), Gao Fu, enviou uma equipe de especialistas para Wuhan. Também em 31 de dezembro, a OMS tomou conhecimento pela primeira vez sobre os casos em uma plataforma de código aberto que monitora informações sobre surtos, disse o chefe de emergências Ryan.

A OMS solicitou oficialmente mais informações em 1º de janeiro. De acordo com a lei internacional, os membros têm de 24 a 48 horas para responder, e a China informou dois dias depois que houve 44 casos e nenhuma morte.

Em 2 de janeiro, Shi havia decodificado todo o genoma do vírus, de acordo com um aviso publicado posteriormente no site de seu instituto.

Os cientistas concordam que os cientistas chineses detectaram e sequenciaram o patógeno até então desconhecido com velocidade espantosa, em um testemunho das capacidades técnicas da China amplamente melhoradas desde a SARS, durante a qual um grupo de cientistas liderado pela OMS levou meses para identificar o vírus. Dessa vez, os virologistas chineses provaram em dias que era um coronavírus nunca antes visto. Tedros diria mais tarde que Pequim estabeleceu “um novo padrão de resposta a surtos”.

Mas quando passou a se tratar de compartilhar as informações com o mundo, as coisas começaram a dar errado.

Em 3 de janeiro, a Comissão Nacional de Saúde emitiu um aviso confidencial ordenando que os laboratórios com o vírus destruíssem suas amostras ou as enviassem para proteção em institutos designados. O aviso, relatado pela primeira vez pelo Caixin e visto pela AP, proibiu os laboratórios de fazer publicações sobre o vírus sem a autorização do governo. A ordem impediu o laboratório de Shi de publicar a sequência genética ou alertar sobre o perigo em potencial.

A lei chinesa afirma que os institutos de pesquisa não podem realizar experimentos com novos vírus potencialmente perigosos sem a aprovação das principais autoridades de saúde. Embora a lei tenha o objetivo de manter os experimentos em segurança, ela oferece aos oficiais de saúde do alto escalão amplos poderes sobre o que os laboratórios de nível inferior podem ou não fazer.

“Se a comunidade virologista tivesse operado com mais autonomia… o público teria sido informado sobre o risco letal do novo vírus muito antes”, disse Edward Gu, professor da Universidade de Zhejiang, e Li Lantian, estudante de doutorado da Universidade Northwestern, em um artigo publicado em março que analisava o surto.

Os oficiais da Comissão mais tarde repetiram que estavam tentando garantir a segurança do laboratório e encarregaram quatro laboratórios governamentais separados de identificar o genoma ao mesmo tempo para obter resultados precisos e consistentes.

Em 3 de janeiro, o CDC chinês havia sequenciado o vírus de forma independente, de acordo com dados internos vistos pela Associated Press. E logo após a meia-noite de 5 de janeiro, um terceiro laboratório governamental designado, a Academia Chinesa de Ciências Médicas, decodificou a sequência e enviou um relatório – impelindo plantonistas a obter resultados em tempo recorde, de acordo com uma entrevista da mídia estatal.

No entanto, mesmo com sequências completas decodificadas por três laboratórios estaduais de forma independente, as autoridades de saúde chinesas permaneceram em silêncio. A OMS informou no Twitter que investigações estavam em andamento sobre um conjunto incomum de casos de pneumonia sem mortes em Wuhan, e disse que compartilharia “mais detalhes à medida que os obtivessem”.

Enquanto isso, no CDC chinês, as lacunas na perícia do coronavírus se provavam um problema.

Por quase duas semanas, Wuhan não relatou novas infecções, pois as autoridades censuraram médicos que alertaram sobre casos suspeitos. Enquanto isso, os pesquisadores descobriram que o novo coronavírus usava uma proteína distinta para se ligar às células humanas. A proteína incomum e a falta de novos casos levaram alguns pesquisadores do CDC chinês a pensar que o vírus não havia se espalhado com facilidade entre os seres humanos – tal como o coronavírus que causa a síndrome respiratória do Oriente Médio, ou MERS, de acordo com um funcionário que se recusou a ser identificado por medo de retaliação.

Li Yize, um pesquisador de coronavírus da Universidade da Pensilvânia, disse que imediatamente suspeitou que o patógeno era infeccioso quando viu uma cópia vazada de um relatório de sequenciamento em um bate-papo em grupo sobre um coronavírus semelhante ao SARS. Mas a equipe do CDC chinês que trabalhava na sequência genética carecia de especialistas moleculares e falhou em consultar cientistas externos, disse Li. As autoridades de saúde chinesas rejeitaram ofertas de assistência de especialistas estrangeiros, incluindo cientistas de Hong Kong impedidos de realizar uma missão de investigação a Wuhan e um professor americano de uma universidade na China.

Em 5 de janeiro, o Centro Clínico de Saúde Pública de Xangai, liderado pelo célebre virologista Zhang Yongzhen, foi o último a sequenciar o vírus. Ele o enviou ao banco de dados GenBank, onde ficou aguardando revisão, e notificou a Comissão Nacional de Saúde. Ele a alertou que o novo vírus era semelhante ao SARS e provavelmente infeccioso.

“Deve ser contagioso através de passagens respiratórias”, disse o centro em um comunicado interno visto pela AP. “Recomendamos tomar medidas preventivas em áreas públicas.”

No mesmo dia, a OMS afirmou que, com base em informações preliminares da China, não havia evidências de transmissão significativa entre humanos e não recomendou medidas específicas para viajantes.

No dia seguinte, o CDC chinês elevou seu nível de emergência para o segundo mais alto. Os funcionários passaram a isolar o vírus, elaborar diretrizes de testes laboratoriais e projetar kits de teste. Mas a agência não tinha autoridade para emitir avisos públicos, e o aumento do nível de emergência foi mantido em segredo mesmo para muitos de seus funcionários.

Em 7 de janeiro, outra equipe da Universidade de Wuhan havia sequenciado o patógeno e descoberto-o compatível com aquele encontrado por Shi, assegurando-a de que eles haviam identificado um novo coronavírus. Mas especialistas do CDC chinês disseram que não confiavam nas descobertas de Shi e que precisavam verificar seus dados antes que ela pudesse publicá-los, segundo três pessoas familiarizadas com o assunto. Tanto a Comissão Nacional de Saúde quanto o Ministério da Ciência e Tecnologia, que supervisiona o laboratório de Shi, se recusaram a disponibilizá-la para uma entrevista.

Um fator importante por trás da ordem de mordaça, dizem alguns, foi que os pesquisadores do CDC chinês queriam publicar seus artigos primeiro. “Eles queriam levar todo o crédito”, disse Li, o especialista em coronavírus.

Internamente, a liderança do CDC chinês é atormentada por uma concorrência feroz, explicaram seis pessoas familiarizadas com o sistema. Elas disseram que a agência há muito tempo promove seus funcionários com base em quantos artigos eles podem publicar em revistas de prestígio, tornando os cientistas relutantes em compartilhar dados.

Com o passar dos dias, até mesmo alguns funcionários do CDC chinês começaram a se perguntar por que demorava tanto tempo para as autoridades identificarem o patógeno.

“Estávamos ficando desconfiados, já que em um ou dois dias você obteria um resultado de sequenciamento”, disse um técnico de laboratório, recusando-se a ser identificado por medo de represálias.

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Em 8 de janeiro, o Wall Street Journal informou que os cientistas haviam identificado um novo coronavírus em amostras de pacientes com pneumonia em Wuhan, antecipando e embaraçando as autoridades chinesas. O técnico de laboratório contou à AP que soube sobre a descoberta do vírus pela primeira vez pelo Journal.

O artigo também envergonhou os funcionários da OMS. O Dr. Tom Grein, chefe da equipe de gerenciamento de eventos agudos da OMS, disse que a agência parecia “duplamente, incrivelmente estúpida”. Van Kerkhove, a especialista americana, reconheceu que a OMS “já estava atrasada” no anúncio do novo vírus e disse aos colegas que era fundamental pressionar a China.

Maria van Kerkhove, chefe da Força-Tarefa de Investigação de Surtos da Organização Mundial da Saúde, em uma entrevista coletiva em Genebra. (Trezzini Marcial/Keystone via AP)

Ryan, chefe de emergências da OMS, também ficou chateado com a escassez de informações.

“O fato é que estamos há duas a três semanas em um evento, não temos um diagnóstico laboratorial, não temos uma distribuição geográfica, de idade ou de sexo, não temos uma curva epidemiológica”, ele se queixou, referindo-se ao gráfico padrão de surtos que os cientistas usam para mostrar como uma epidemia está progredindo.

Após o artigo, a mídia estatal anunciou oficialmente a descoberta do novo coronavírus. Mas, mesmo assim, as autoridades de saúde chinesas não divulgaram o genoma, testes diagnósticos ou dados detalhados dos pacientes que poderiam sugerir o quão infecciosa era a doença.

Naquela época, casos suspeitos já estavam aparecendo por toda a região.

Em 8 de janeiro, oficiais de um aeroporto tailandês afastaram uma mulher de Wuhan com corrimento nasal, dor de garganta e febre alta. A equipe da professora da Universidade de Chulalongkorn, Supaporn Wacharapluesadee, descobriu que a mulher estava infectada com um novo coronavírus, muito parecido com o que as autoridades chinesas haviam descrito. Supaporn descobriu parcialmente a sequência genética dele em 9 de janeiro, informou ao governo tailandês e passou o dia seguinte procurando por sequências correspondentes.

Mas como as autoridades chinesas não haviam publicado nenhuma sequência, ela não encontrou nada. Ela não podia provar que o vírus tailandês era o mesmo que adoecia as pessoas em Wuhan.

“Foi meio que esperar e ver, quando a China divulgar os dados, então poderemos compará-los”, disse Supaporn.

Em 9 de janeiro, um homem de 61 anos com o vírus faleceu em Wuhan – a primeira morte conhecida. A morte não foi divulgada até 11 de janeiro.

Os oficiais da OMS reclamaram em reuniões internas que estavam solicitando repetidamente por mais dados, especialmente para descobrir se o vírus poderia se espalhar eficientemente entre humanos, mas sem sucesso.

“Pedimos formal e informalmente por mais informações epidemiológicas”, disse Galea, representante da OMS na China. “Mas, quando solicitados detalhes, não conseguimos nada.”

O chefe de emergências, Ryan, resmungou que, como a China estava fornecendo as informações mínimas exigidas pelo direito internacional, havia pouco que a OMS pudesse fazer. Mas ele também observou que, em setembro passado, a OMS emitiu uma repreensão pública incomum para a Tanzânia por não fornecer detalhes suficientes sobre um surto preocupante de Ebola.

“Temos que ser consistentes”, disse Ryan. “O perigo agora é que, apesar de nossas boas intenções… especialmente se algo acontecer, haverá muita atenção para a OMS.”

Ryan observou que a China poderia prover uma “enorme contribuição” ao mundo compartilhando o material genético imediatamente, porque, caso contrário, “outros países terão que reinventar a roda nos próximos dias”.

Em 11 de janeiro, uma equipe liderada por Zhang, do Centro Clínico de Saúde Pública de Xangai, finalmente publicou uma sequência no virological.org, usada por pesquisadores para trocar dicas sobre patógenos. A medida enfureceu os oficiais do CDC chinês, disseram três pessoas familiarizadas com o assunto, e, no dia seguinte, seu laboratório foi temporariamente fechado por autoridades de saúde.

Zhang encaminhou um pedido de resposta ao CDC chinês. A Comissão Nacional de Saúde, que supervisiona o CDC chinês, recusou-se várias vezes a disponibilizar seus funcionários para entrevistas e não respondeu a perguntas sobre Zhang.

Supaporn comparou sua sequência com a de Zhang e descobriu que elas eram 100% compatíveis, confirmando que a paciente tailandesa estava doente com o mesmo vírus detectado em Wuhan. Outro laboratório tailandês obteve os mesmos resultados. Naquele dia, a Tailândia informou a OMS, disse Tanarak Plipat, diretor geral adjunto do Departamento de Controle de Doenças do Ministério da Saúde Pública da Tailândia.

Depois que Zhang lançou o genoma, o CDC chinês, o Instituto de Virologia de Wuhan e a Academia Chinesa de Ciências Médicas correram para publicar suas sequências, trabalhando durante a noite para analisá-las, coletar dados dos pacientes e enviá-las à Comissão Nacional de Saúde para aprovação, de acordo com a documentação obtida pela AP. Em 12 de janeiro, os três laboratórios juntos finalmente publicaram as sequências no GISAID, uma plataforma para os cientistas compartilharem dados genômicos.

Uma tela de TV gigante em um shopping tranquilo em Pequim mostra o presidente Xi Jinping conversando com trabalhadores médicos no Hospital Huoshenshan em Wuhan em março. (Foto da AP/Andy Wong)

Até então, mais de duas semanas haviam se passado desde que a Vision Medicals decodificara uma sequência parcial e mais de uma semana desde que os três laboratórios do governo haviam obtido sequências completas. Cerca de 600 pessoas foram infectadas naquela semana, um aumento de aproximadamente três vezes.

Alguns cientistas dizem que a espera não era desarrazoada, considerando as dificuldades de se sequenciar patógenos desconhecidos, uma vez que a precisão é tão importante quanto a velocidade. Eles apontam para o surto de SARS em 2003, quando alguns cientistas chineses inicialmente – e erroneamente – acreditaram que a fonte da epidemia era a clamídia.

“A pressão é intensa em um surto para garantir que você esteja certo”, disse Peter Daszak, presidente da EcoHealthAlliance em Nova York. “Na verdade, é pior ir a público com uma história errada, porque o público perde completamente a confiança na resposta da saúde pública.”

Ainda assim, outros questionam silenciosamente o que aconteceu nos bastidores.

O especialista em doenças infecciosas John Mackenzie, que atuou em um comitê de emergência da OMS durante o surto, elogiou a velocidade dos pesquisadores chineses em sequenciar o vírus. Mas ele acrescentou que, assim que as autoridades centrais se envolveram, dados detalhados passaram a gotejar.

“Certamente houve um tipo de período em branco”, disse Mackenzie. “Tinha que haver transmissão de humano para humano. Você sabe, está encarando você de frente… Eu teria pensado que eles teriam sido muito mais abertos nessa fase.”

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Em 13 de janeiro, a OMS anunciou que a Tailândia tinha um caso confirmado do vírus, sacudindo as autoridades chinesas.

No dia seguinte, em uma teleconferência confidencial, a principal autoridade de saúde da China ordenou que o país se preparasse para uma pandemia, chamando o surto de “o desafio mais grave desde a SARS em 2003”, como a AP divulgou anteriormente. A equipe do CDC chinês começou, em todo o país, a triar, isolar e testar os casos, que ascendiam para a ordem de centenas.

No entanto, mesmo quando o CDC chinês declarou internamente uma emergência de nível um, o nível mais alto possível, as autoridades chinesas ainda disseram que a chance de transmissão sustentável entre humanos era baixa.

A OMS ia e voltava. Van Kerkhove disse em uma coletiva de imprensa que “é certamente possível que haja transmissão limitada de humano para humano”. Mas horas depois, a OMS pareceu recuar e tweettou que “investigações preliminares conduzidas pelas autoridades chinesas não encontraram evidências claras de transmissão de humano para humano” – uma declaração que mais tarde se tornou matéria para críticas.

Um alto oficial do escritório da OMS na Ásia, Dr. Liu Yunguo, que cursou medicina em Wuhan, viajou para Pequim para fazer contatos diretos e informais com autoridades chinesas, mostram as gravações. O ex-colega de classe de Liu, um médico de Wuhan, o alertou de que pacientes com pneumonia estavam inundando os hospitais da cidade, e Liu pediu que mais especialistas visitassem Wuhan, de acordo com um especialista em saúde pública familiarizado com o assunto.

Em 20 de janeiro, o renomado médico Zhong Nanshan, líder de uma equipe de especialistas que retornava de Wuhan, declarou publicamente pela primeira vez que o novo vírus estava se espalhando entre as pessoas. O presidente chinês Xi Jinping pediu a “publicação oportuna de informações sobre epidemias e o aprofundamento da cooperação internacional”.

O especialista em respiração Zhong Nanshan participa de uma cerimônia de juramento por meio de conexões de vídeo para dois novos membros do Partido Comunista em estágio probatório em Wuhan. (Deng Hua/Xinhua via AP)

Apesar dessa diretiva, a equipe da OMS ainda lutava para obter dados médicos detalhados suficientes da China sobre o surto em rápida evolução. Nesse mesmo dia, a agência de saúde da ONU enviou por dois dias uma pequena equipe para Wuhan, incluindo Galea, representante da OMS na China.

Eles foram informados sobre um conjunto preocupante de casos entre mais de uma dúzia de médicos e enfermeiros. Mas eles não tinham “árvores de transmissão” detalhando como os casos eram conectados, nem um entendimento completo do quão amplamente o vírus estava se espalhando e de quem estava em risco.

Em uma reunião interna, Galea disse que seus colegas chineses estavam “conversando aberta e consistentemente” sobre transmissão de humano para humano, e que havia um debate sobre se ela era ou não sustentável. Galea relatou aos colegas em Genebra e Manila que o principal pedido da China para a OMS era de ajuda “para comunicar isso ao público, sem causar pânico”.

Em 22 de janeiro, a OMS convocou um comitê independente para determinar se declararia uma emergência de saúde global. Após duas reuniões inconclusivas onde os especialistas ficaram divididos, eles decidiram contra – mesmo com as autoridades chinesas ordenando que Wuhan fosse selada na maior quarentena da história. No dia seguinte, o chefe da OMS, Tedros, descreveu publicamente a disseminação do novo coronavírus na China como “limitada”.

Durante dias, a China não divulgou muitos dados detalhados, mesmo com a contagem de casos explodindo. As autoridades da cidade de Pequim ficaram alarmadas o suficiente para considerar o bloqueio da capital, de acordo com um médico especialista com conhecimento direto do assunto.

Em 28 de janeiro, Tedros e os principais especialistas, incluindo Ryan, fizeram uma viagem extraordinária a Pequim para se encontrar com o presidente Xi e outras altas autoridades chinesas. É altamente incomum que o diretor-geral da OMS intervenha diretamente nos aspectos práticos de investigações sobre surtos. Os funcionários de Tedros haviam preparado uma lista de pedidos por informações.

“Pode ser que tudo aconteça e as comportas se abram, ou que não haja comunicação alguma”, disse Grein em uma reunião interna enquanto seu chefe estava em Pequim. “Veremos.”

No final da viagem de Tedros, a OMS anunciou que a China havia concordado em aceitar uma equipe internacional de especialistas. Em uma entrevista coletiva em 29 de janeiro, Tedros amontoou a China de elogios, chamando seu nível de compromisso de “incrível”.

No dia seguinte, a OMS finalmente declarou uma emergência internacional de saúde. Mais uma vez, Tedros agradeceu à China, sem mencionar nada sobre a falta de cooperação anterior.

“Deveríamos realmente expressar nosso respeito e gratidão à China pelo que ela está fazendo”, disse Tedros. “Ela já tem feito coisas incríveis para limitar a transmissão do vírus a outros países.”

Original em The Associated Press, 2 de junho de 2020.

Tradução: Ágata Cahill

Revisão adicional: Eli Vieira

The Associated Press (AP)

A Associated Press (AP) é uma organização global e independente de notícias fundada em 1846. Considerada uma das mais tradicionais agências de notícias do mundo, é a fonte primária de diversos jornais.

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