Academia, Ativismo, História, Política, Sexos, Sociedade

Ganhei um PhD alegando que gênero é construção social — Confesso, inventei tudo

Se eu soubesse, há 20 anos, que o meu lado nas guerras ideológicas sobre gênero e sexo ganharia tão decisivamente, ficaria extático. Naquela época, gastei muitas noites no pub ou em jantares debatendo gênero e identidade com outros estudantes da pós-graduação; ou, na verdade, qualquer um que escutasse — minha sogra, meus parentes, ou apenas algum aleatório azarado o suficiente para estar na minha presença. Eu insistia que sexo não existe. E eu sabia disso. Eu simplesmente sabia. Porque eu era um historiador de gênero.

Isso era, nos anos 90, um assunto badalado nos departamentos de história pela América do Norte. História do gênero — e estudos de gênero, mais amplamente, em toda a academia — era parte de um grupo maior de subdisciplinas baseadas em identidade que estavam tomando as artes liberais. Departamentos de história em todo o continente foram transformados. Quando a American Historical Association pesquisou as tendências entre os principais campos de especialização em 2007, e novamente em 2015, o maior era história das mulheres e de gênero. Estava no topo de interesse, com história social, história cultural e história da raça e sexualidade. Cada um desses campos compartilhavam a mesma cosmovisão que eu — de que praticamente toda identidade era uma construção social. E que identidade se tratava totalmente de poder.

Naquela época, bastante gente discordava de mim. Quase ninguém que não havia sido exposto a essas teorias em alguma universidade poderia se fazer acreditar que sexo era, em sua completude, uma construção social, porque tais crenças iam contra o senso comum. Isso é o que faz tão impressionante o fato de que a reviravolta social nessa questão aconteceu tão rapidamente. Pessoas razoáveis podem prontamente admitir que parte — e talvez muito — da identidade de gênero é socialmente construída, mas isto realmente significava que sexo não importava em nada? Gênero era unicamente baseado na cultura? Sim, eu insistiria. E então eu insistiria mais um pouco. Não há nada tão convicto quanto um estudante com sua preciosa pouca experiência de vida e com uma grande ideia.

E agora a minha grande ideia está em todo canto. Ela aparece especialmente em tópicos de debates sobre direitos trans e políticas sobre atletas trans em esportes. Está sendo escrita em leis que essencialmente visam a coibir qualquer um que sugira que sexo possa ser uma realidade biológica. Tal afirmação, para muitos ativistas, equivale a discurso de ódio. Se você se posicionar da mesma forma que muitos dos meus oponentes de debate nos anos 90 se posicionaram — de que gênero é, pelo menos parcialmente, baseado em sexo e que existem de fato dois sexos (macho e fêmea), como biólogos sabem desde os primórdios da ciência — ultra progressistas apontarão que você está negando a identidade de pessoas trans, ou seja, desejando dano ontológico sobre outro ser humano.

Eu tenho certeza de que não preciso instruir leitores da Quillette sobre todas as formas com as quais esta lógica social-construtivista se infiltrou em nossa cultura. Mas o que eu posso oferecer é um mea culpa pelo meu papel nisso tudo e uma crítica detalhada sobre por que eu estava errado e por que os construtivistas sociais radicais estão errados agora. Eu utilizei os mesmos argumentos que eles usam agora, então eu sei de que forma estão errados.

* * *

Eu tenho minha carteirinha completa de filiado social-construtivista. Finalizei meu doutorado em história do gênero e publiquei meu primeiro livro sobre o assunto, The Manly Modern: Masculinity in Postwar Canada [O Másculo Moderno: A Masculinidade no Canadá Pós-Guerra, em tradução livre], em 2007. O título prometeu mais do que entrega; na verdade, são 5 estudos de caso de meados do século XX, todos centrados em Vancouver, que possuíam uma discussão pública dos aspectos “masculinos” da sociedade. Os exemplos que eu usei eram baseados na em cultura sobre carros, assassinato, um clube de montanhismo, um terrível incidente de violência no trabalho (o colapso de uma ponte), e uma comissão real para o tratamento de um grupo de veteranos do exército. Não entrarei em detalhes. Mas eu me envergonho de alguns conteúdos — especialmente em relação aos dois últimos casos.

O livro não ganhou nenhum prêmio, mas parece ter sido um daqueles livros que os acadêmicos de vez em quando citam quando querem escrever sobre a história da masculinidade. Olha, eles dirão, outra pessoa escreveu sobre isto: Aquele companheiro canadense Dummitt escreveu, em 2007. (O Google Acadêmico me informa que foi citado 112 vezes até julho de 2019. Não é muito. Mas história canadense é um campo pequeno e os números de citações são bem baixos para todo mundo.) Atualmente, masculinidade — especialmente da variedade “tóxica” — é um assunto em alta. Mas, na época, havia poucos livros sobre masculinidade no Canadá, então o meu ganhou mais do que sua fatia de atenção.

Eu também publiquei um artigo tirado da minha tese de mestrado, que provavelmente teve um alcance maior que o do meu trabalho acadêmico. Foi um artigo engraçado chamado Finding a Place for Father: Selling the Barbecue in Postwar Canada [Encontrando um Lugar para o Pai: Popularizando o Churrasco no Canadá Pós-Guerra], que abordou a conexão entre homens e churrasco no Canadá nos anos 40 e 50. (Sim, esse é o tipo de coisa que acadêmicos fazem.) Primeiramente publicado em 1998, foi republicado muitas vezes em livros didáticos para graduandos. Muitos jovens estudantes universitários, primeiro aprendendo sobre a história do Canadá, foram forçados a ler aquele artigo sobre história do gênero — e a construção social do gênero.

O problema é: Eu estava errado. Ou, para ser mais preciso, entendi as coisas apenas parcialmente certo. Mas, para o resto, eu basicamente inventei.

Em minha defesa, eu não estava sozinho. Todos estavam (e estão) inventando tudo. É assim que o campo dos estudos de gênero funciona. Mas isto não é bem uma defesa. Eu deveria ter sido mais consciente. Se eu fosse me analisar retroativamente, eu diria que, na verdade, eu tive consciência. E é por isso que eu era tão raivoso e assertivo sobre o que eu achava que sabia. Era para ignorar o fato de que, em um nível bem básico, eu não tinha como provar parte do que eu estava dizendo. Então eu me apeguei aos argumentos com fervor, e ataquei pontos de vista alternativos. Intelectualmente, não era bonito. E é isso que torna tão decepcionante ver que os pontos de vista que eu costumava defender tão fervorosamente — e tão infundadamente — agora foram aceitos por tantos na sociedade em geral.

A minha metodologia funcionava assim: Primeiro, eu apontaria que, como historiador, eu sabia que existia uma grande variabilidade cultural e histórica. Gênero não foi definido da mesma forma sempre e em todos os lugares. Era, como eu escrevi em The Manly Modern, “um conjunto historicamente mutável de conceitos e relações que dá significado às diferenças entre homem e mulher.” Como você poderia dizer que ser um homem ou uma mulher é algo enraizado na biologia, se nós temos evidência de mudança destes conceitos ao longo do tempo? Além disso, insisti que “Não existe nenhuma evidência não-histórica para diferenças sexuais enraizadas em fundamentos biológicos ou outros fundamentos sólidos que possam existir antes de serem compreendidos culturalmente.”

E eu tinha meus exemplos favoritos, eventualmente aperfeiçoando-os em boas anedotas que pudesse utilizar em aulas ou conversas — sobre Luís XIV e o que eu chamei de sua viril pose da panturrilha, da qual teria sido vista como o ápice da masculinidade nos anos 1600, mas que parece muito mais afeminado em padrões atuais. Ou eu falaria sobre azul e rosa, trazendo citações dos anos 20 que mostravam pessoas dizendo que meninos deveriam vestir rosa porque era ardente e terreno, e meninas deveriam vestir azul porque é aéreo e etéreo. Renderia umas risadas e demonstraria meu argumento. Aquilo que pensamos com a mais absoluta certeza sobre gênero, na verdade, mudou com o tempo. Gênero não era binário: Era variável e talvez infinito.

Em segundo lugar, eu argumentaria que sempre que você se deparasse com alguém dizendo que algo era masculino ou feminino, nunca se tratava apenas de gênero. Dizia respeito sempre, simultaneamente, ao poder. E poder era, e permanece sendo, um tipo de palavra mágica na academia — especialmente para um estudante lendo Michael Foucault pela primeira vez. Lembre-se de que estávamos no meio de discussões intermináveis sobre “agência” (quem tinha? Quem não tinha? Quando? Onde?). Então se alguém negava que gênero e sexo eram variáveis, se sugeria que realmente havia algo atemporal ou biológico em relação a sexo e gênero, estaria, na verdade, dando desculpas para o poder. Eles eram apologistas da opressão. Soa familiar?

No meu artigo sobre por que homens faziam churrasco, por exemplo, eu afirmei saber que este controle do espeto se tratava, na verdade, mais amplamente de poder. “Podemos ver o envolvimento de homens em afazeres domésticos [churrasco] como um pequeno passo numa evolução progressiva?”, perguntei. Não, claro que não. Ao invés disso, a forma como as pessoas falavam de homens fazendo churrasco “redefiniu e rearticulou antigas divisões entre público e privado, e masculino e feminino.” Em The Manly Modern, eu fui mais explícito: “Gênero também se trata de poder… Se referir a dois conceitos de uma forma que codifica um como masculino e outro como feminino é estabelecer uma hierarquia entre ambos.” Nunca existia simplesmente uma descrição de gênero. Ideias sobre masculinidade no passado foram sempre criadas “para propósitos políticos.” As ideias particulares das quais eu falava sobre no livro, eu argumentei, mostraram como pessoas no passado, ao descrever coisas como masculinas ou femininas, tinham “providenciado uma explicação sobre diferenças entre homens e mulheres e uma justificativa poderosa para desigualdade.”

E então, em terceiro lugar, eu buscava por alguma explicação no contexto histórico que mostrou, em um momento histórico particular, por que as pessoas no passado falavam sobre algo como sendo masculino ou feminino. História é um lugar vasto. Portanto, tinha sempre algo para achar. Eu escrevi sobre os anos após a Segunda Guerra Mundial, então você poderia sempre dizer que as pessoas estavam ansiosas para o retorno à normalidade após a guerra. Mulheres serviram o exército e trabalharam em serviços “de homens”. Então o foco em distinções de gênero era para trazer mulheres de volta para dentro de casa após seu trabalho durante a guerra. Tudo isso se tratava de poder e opressão.

E, é claro, as pessoas estavam ansiosas por causa desses desenvolvimentos no final dos anos 40. Eu poderia citar as pesquisas de outros nesta área, e deste modo mostrar — mostrar de verdade, eu pensei — que gênero era uma construção social, e estava sendo construído assim de modo a colocar mulheres de volta em seus lugares após a Segunda Guerra Mundial.

Você poderia selecionar outros detalhes contextuais. E de fato, no meu livro, eu fiz isso. Eu fiquei fascinado em ler sobre a modernização da vida na metade do século e então apontei todas as formas pelas quais as pessoas nos anos pós-guerra se conectaram falando sobre modernidade ao falar sobre masculinidade. Era, como trabalho acadêmico, razoavelmente bem feito, se posso dizer. O problema é que, também era, em parte, intelectualmente falido.

Aqui está onde eu não estava errado: A pesquisa dos arquivos, eu creio, era sólida. Eu fui até os documentos da época, e então fui capaz de recuperar a forma como as pessoas falavam e escreviam sobre ser homem. Eu realmente me tornei um conhecedor da era. Essa é a parte maravilhosa de ser historiador.

Na medida em que me apeguei aos documentos e reconstruí como as pessoas falavam no passado, eu estava em terreno seguro. Este é, na linguagem dos historiadores, o “como” da história. Historiadores privilegiam certos tipos de questões em detrimento de outras. Todo mundo deveria entender quem, o quê, quando e onde. Estes são os detalhes do passado. Mas esse tipo de precisão é, como escreveu o grande historiador E. H. Carr, um dever, não uma virtude. Portanto, não é algo que eu ostento.

Mas então existem mais duas questões, e essas são as que realmente importam. A primeira delas era “como”: Como isso aconteceu? Como as pessoas pensavam no passado? Responder essas questões significava reconstruir padrões de pensamento. Você nunca pode reconstruir completamente os padrões de pensamento dos outros, especialmente aqueles que viveram noutra era. Mas eu acho que, nesta tarefa, eu passei com boas notas.

Mas a maior questão de todas — e a mais importante — é a final: “por que?” Por que um certo evento ocorreu da forma que ocorreu? No meu caso, isto era: Por que as conversas pós-guerra de canadenses sobre homens e mulheres ocorreram daquela forma?

Eu possuía respostas, mas não as achei na minha pesquisa primária. Elas vieram das minhas crenças ideológicas — ainda que, na época, eu não descrevesse isso como ideologia. Nem meus companheiros acadêmicos que adotaram a mesma abordagem — e, diferente de mim, ainda adotam. Mas é assim que era e é: um conjunto de crenças pré-formadas que são construídas dentro da penumbra disciplinar dos estudos de gênero. Essencialmente, segui a metodologia de três pontos Foucault-cêntrica descrita acima.

As pessoas falavam sobre homens daquela maneira particular que descrevi, argumentei eu, porque gênero era uma construção social cujo formato pode ser atribuído ao poder e à opressão: Canadenses usaram pensamentos sobre gênero para dar poder a alguns homens e desfavorecer as mulheres, para estruturar masculinidade como sendo melhor que feminilidade.

Quanto à questão maior, de se gênero é socialmente construído, não era algo que eu poderia provar. Mas em The Manly Modern, eu citei a proeminente historiadora Joan Scott para este efeito e isso pareceu o suficiente para satisfazer aos revisores. Em meu livro, eu certamente mostrei que as pessoas falavam as coisas de um modo que fazia o gênero saliente. Elas descreviam algumas coisas como masculinas e outras como femininas. Porém, mesmo aí, eu poderia ser criativo: se algo não era descrito especificamente como sendo masculino ou feminino, eu poderia insinuar que quiseram dizer isso. Em um capítulo de The Manly Modern, por exemplo, argumentei que “ideais do bom motorista e do bom homem — ostensivamente categorias separadas — compartilhavam muitas características.” Também argumentei que se contemporâneos não tivessem apontado isso explicitamente era porque apenas era “presumido”. E se você jogasse citações de outros acadêmicos que falaram a mesma coisa, então faria sentido. Obviamente, seria possível olhar para o mesmo material e chegar a uma outra explicação perfeitamente plausível. Canadenses pós-guerra poderiam ter construído socialmente a ideia de que homens são tomadores de risco? Sim, é plausível. Mas também é plausível que eles falassem sobre homens desta forma porque, em média, homens… tomam mais riscos. Poderia, na verdade, simplesmente ser o fato de como homens são. Minha pesquisa não provou nenhum dos dois. Eu apenas presumi que gênero era uma construção social e segui neste viés.

Eu nunca me envolvi — pelo menos não seriamente — com ninguém que sugerisse algo diferente. E ninguém, em nenhum ponto durante a graduação, ou nas revisões por pares, nunca sugeriu o contrário — exceto em conversas, geralmente fora da academia. E então eu fui forçado a confrontar explicações alternativas, orientadas biologicamente, que eram pelo menos tão plausíveis quanto hipóteses a que eu dava ar de certeza. A crítica ao construtivismo social de Steven Pinker, The Blank Slate: The modern Denial of Human Nature [Tábula Rasa: A negação moderna da natureza humana], foi publicado em 2002 antes de eu finalizar meu doutorado e antes de eu publicar meu livro. Mesmo assim eu nem ouvi falar dele e ninguém nunca sugeriu que eu poderia ter que lidar com seus argumentos e evidências. Só isso já diz bastante sobre o silo que habitávamos.

As únicas críticas reais que eu recebi foram sugestões para fortalecer o paradigma, ou lutar por outras identidades e ir contra outras formas de opressão. (A ideia de que opressão absolutamente existia baseada nessas identidades interseccionais era simplesmente presumida, não demonstrada, ou provada.) Então podem me perguntar por que não falei mais sobre classe. Ou por que gastei tanto tempo falando sobre homens e não mulheres? Ainda que eu estivesse desconstruindo a masculinidade e mostrando que era uma construção social, certamente eu precisava prestar mais atenção em mulheres também. Ou, que tal, sexualidade? Não vi mais referências sobre homens que não eram héteros, então não deveria eu ter prestado mais atenção na forma como masculinidade era construída ao redor da sexualidade? Você pode estender tais críticas a uma miríade de caminhos. Mas o ponto é que todas as críticas operaram dentro do paradigma ao qual eu já havia me entregado. Era exatamente o tipo de armadilha acadêmica satirizada pelo recente caso dos Estudos de Ressentimento.

* * *

Algumas das primeiras dúvidas que eu comecei a ter sobre meu treinamento na graduação começaram a chegar a este ponto. Por quanto tempo a profissão poderia continuar expandindo apenas pela adição de mais e mais opressões? Certamente, em algum ponto, a História seria completamente inclusiva de verdade. Na verdade, eu tinha certeza de que já era o caso. Em 2009, publiquei um livro com um ensaio intitulado After Inclusiveness [Após a Inclusão], defendendo isso. Felizmente, eu tinha segurança empregatícia [tenure] na época em que o livro foi lançado. Muitos na profissão admitiram em privado que eu estava certo, mas quase ninguém admitiria em público.

Lembro-me de uma conversa com um genial historiador mais velho que graciosamente se ofereceu para ler o meu artigo sobre homens e churrascos. Eu era um jovem doutorando fazendo trabalho completamente diferente do dele. Não sei por que se ofereceu, mas seus comentários foram notáveis. Ele educadamente disse que os pedaços do meio eram bons, mas não partes de ambas as pontas. Isto é, ele gostou da pesquisa no artigo, onde eu reconstruí como as pessoas falavam sobre homens e churrascos no Canadá pós-guerra. Mas a parte em que eu juntei tudo isso e enfiei dentro da ideologia expressada nos livros que eu havia lido recentemente, não muito.

Na época, eu não fiz nenhuma mudança. Como poderia? Este era o paradigma com o qual eu estava comprometido. Era na introdução e na conclusão que eu estava batendo nos pontos que queria — que gênero era uma construção social, que canadenses pós-guerra estavam ansiosos que homens estavam vivendo vidas domesticadas em subúrbios e se envolvendo como bons pais, então utilizaram este exemplo bobo de homens fazendo churrasco como uma forma de dizer que, na verdade, homens não se envolveriam muito em cozinhar e que, quando o fizessem, seria divertido e que é claro que eles eram ruins nisso e só o faziam porque era perigoso e isto os lembrava dos dias de homens da caverna. Aqui eu enfiei o tal do poder — reconhecidamente, meio que de uma forma divertida — que reforçava as diferenças entre homens e mulheres.

Para reiterar: O problema era, e é, que eu estava inventando tudo isso. Estas eram adivinhações informadas que eu estava oferecendo. Eram hipóteses. Talvez eu estivesse certo. Mas nem eu, nem mais ninguém, nunca pensou em verificar o que escrevi. O que acadêmicos mais velhos me disseram poderia ser aplicado a milhares de artigos e livros: O meio está bom, mas as pontas estão duvidosas.

Algumas questões básicas se apresentam. Realmente existiram grotescas diferenças e variáveis expectativas de gênero ao longo do tempo e em diferentes lugares? Isto não é algo que pode ser respondido com as anedotas que eu usava e que pessoas ainda usam hoje. Deve ser estudado sistemática e comparativamente. Em minha própria leitura na época, tenho de admitir agora, o que eu estava vendo era uma leve variabilidade com um grau de consistência central. Ideias sobre homens como provedores, tomadores de risco e aqueles com responsabilidades especiais de proteção e combate parecem ser razoavelmente consistentes ao longo da história e das culturas. Sim, existem variações sobre o ciclo de vida e algumas particularidades culturais e históricas. Mas se você não começasse a sua pesquisa presumindo que as pequenas diferenças devem ser muito importantes, não é tão claro que você deveria concluir isto das evidências.

E era mesmo sempre relacionado a poder? Talvez. Talvez não. Eu costumava usar como prova outros acadêmicos que diziam que sim. Ajudava se o nome fosse francês e eles fossem filósofos. O trabalho de um sociólogo australiano, R. W. Connell, ajudou também. Ele argumentara que masculinidade era primariamente relacionada a poder — tratando-se de dominância assertiva sobre mulheres e outros homens. Na verdade, o trabalho dele não provava isso; apenas extrapola a partir de pequenos estudos de caso, da mesma forma que eu tinha feito. Então citei Connell. E outros me citaram. E é assim que você “prova” que gênero é uma construção social e se trata inteiramente de poder. Ou, na verdade, “prova” qualquer coisa.

Meu raciocínio falho, e outros colegas utilizando o mesmo pensamento deficiente, agora está sendo tomado por ativistas e governos para legislar um novo código de conduta moral. Uma coisa era quando eu estava bebendo com colegas e batalhando por essas ideias por aí no mundo inconsequente dos nossos próprios egos. Mas agora, muito mais está em jogo. Eu gostaria de poder dizer que a academia melhorou – fazendo mais rígidas as regras para evidências e revisões por pares. Mas a realidade é que a atual aceitação quase total do construtivismo social em certos círculos parece mais o resultado de mudanças demográficas na academia, com certos pontos de vista dominando ainda mais do que no auge da minha pós-graduação.

Esta confissão não deve ser interpretada como um argumento a favor de que gênero não é, em muitos casos, socialmente construído. Mas críticos dos construtivistas sociais têm razão em levantar as sobrancelhas diante da dita prova apresentada por supostos especialistas. Meu próprio raciocínio falho nunca foi denunciado — e, na verdade, só foi mais ideologicamente influenciado pela revisão por pares. Até que tenhamos estudos seriamente críticos e ideologicamente divergentes sobre sexo e gênero — até que a revisão por pares possa ser algo mais do que uma forma de triagem ideológica em grupo — deveremos ser muito céticos de fato sobre muito do que conta como “expertise” na construção social de sexo e gênero.

Original em Quillette, 17 de setembro de 2019.

Tradução: Felipe Mezoni Bezerra.

Revisão adicional: Eli Vieira.

Christopher Dummitt

Christopher Dummitt é um historiador de cultura e política, professor associado na Trent University’s School for the Study of Canada e autor de Unbuttoned: A History of Mackenzie King’s Secret Life.