Ciência, Medicina, Sociedade

Fechem tudo! Pandemias não nos deixam muitas opções

Algumas semanas atrás, escrevi sobre o vírus SARS-CoV-2 com uma história sobre seus possíveis inícios e como ele estava destinado a se tornar a próxima pandemia do mundo. Não sou virologista ou epidemiologista, mas sei muito sobre o pensamento e o comportamento humano com uma sólida base em biologia. A combinação de apresentação inicial leve e longo período de incubação significou que o SARS-CoV-2 seria impossível de conter sem esforços draconianos.

Ontem, a OMS finalmente admitiu que o vírus se espalhou além de qualquer possibilidade de contenção e, como outros vírus respiratórios, se espalhará por todo o mundo através da população humana até ser contido por um desses dois fatores – número suficiente de pessoas ganhando imunidade ao patógeno (o que se consegue sendo infectado por ele) ou quando se desenvolver e distribuir uma vacina eficaz.

E o calor? Gripes e resfriados se espalham menos rapidamente no verão e em temperaturas mais altas. Isso é verdade, por duas razões: as pessoas estão do lado de fora e menos aglomeradas em lugares fechados, e os raios UV e o calor matam o vírus mais facilmente do que a luz interna e o ar-condicionado. A maioria desses vírus se espalha através de gotículas, algumas delas são pequenas e são aceleradas em grande velocidade quando alguém espirra. Quando o ar está mais úmido, as gotas são maiores e mais pesadas e caem no chão mais rapidamente. Mas aqui está o problema: em um verão normal, a propagação é retardada por uma combinação de calor, umidade e imunidade. Em uma pandemia, ninguém está imune, então o patógeno continua a se espalhar.

É por isso que as pandemias respiratórias infectam 60% das pessoas no primeiro ano. Com as pandemias de gripe, isso significa que cerca de 30% das pessoas têm sintomas e outros 30% são infectados sem sintomas. Embora haja relatos conflitantes, o mesmo pode ser verdade para a COVID-19, a doença causada pelo SARS-CoV-2.

Então, o que devemos fazer agora? Estamos em um país ocidental (EUA) com mais ou menos mil casos.(1)N. do T. Confira os dados mundiais de infecção com atualização automática em português aqui. Vimos vários países passarem por isso antes de nós. Na China, as coisas ficaram fora de controle e as pessoas morreram nas ruas de Wuhan até que trancaram 800 milhões de pessoas em suas casas, por 6 semanas, e controlaram sua pandemia. Depois o Irã…  e de lá temos relatos de campos de futebol sendo utilizados como covas coletivas. A Itália teve a infelicidade de ser a bola da vez. Teve primeiramente poucos casos, e possui um ótimo sistema de saúde, mas agora está ficando sem UTIs e com todo o sistema sobrecarregado ao ponto de decidir quem pode ou não receber um leito. Por outro lado, em Singapura, Hong Kong e Coréia do Sul, onde testes, rastreamento massivo e quarentena diminuíram e até pararam a propagação do vírus.

Por que não apenas “largar de frescura”, como Boris Johnson (primeiro-ministro da Inglaterra) sugere? Deixemos a epidemia seguir seu curso. Afinal, é uma infecção que não afeta os mais jovens sem condições de saúde pré-existentes. Caso você não ame seus avós ou amigos que possuem alguma doença pré-existente, por que não? A sorte está lançada! 

O vírus é 10 a 30 vezes mais mortal que a gripe normal e não temos proteção extra contra surtos para uma nova pandemia. Temos pouca capacidade para leitos extras na UTI, e esses pacientes ficam entubados na UTI por semanas. Se você sofrer um acidente de carro, sofrer uma lesão cerebral, precisar de uma UTI por algumas noites para se recuperar … em uma pandemia, você está morto. As UTIs estão cheias. Os hospitais estão cheios. Não fique doente. Não se machuque.

Somente o pensamento mágico impede Seattle de se tornar Itália em 10 dias. Temos que fechar tudo. Temos que nos isolar, impedir todas as grandes aglomerações e higienizar nossas mãos com sabão quando entramos em nossas próprias casas. Quanto mais nos isolarmos, menos grave será a epidemia. Quanto mais outras pessoas se queixam de como estamos exagerando, melhor o trabalho que estamos fazendo.

Todos nós temos poder sobre o nosso próprio destino. A única maneira de ser infectado é espirrar ou tossir em locais próximos ou em uma multidão ou tocar as partículas de vírus (pegajosas, oleosas) e depois tocar a “zona T” de nossos rostos. Se lavarmos ou higienizarmos (com álcool isopropílico mais de 60% ou sabão) as mãos antes de tocarmos o rosto e mantermos distância de qualquer pessoa que possa tossir ou espirrar, não ficaremos doentes.

Fique em casa. Assista Netflix. Participe de suas aulas pelo aplicativo Zoom. Faça visitas médicas via whatsapp. Os regulamentos federais que universalizariam a Telemedicina ajudariam bastante a acabar com essa epidemia. Estoque alimentos e material de limpeza e evite multidões. Agora!

Os doentes e mortos de hoje representam um número muito menor de casos que duas ou três semanas atrás. As epidemias se espalham, no início, de forma exponencial – 2 se tornam 4, que se tornam 16, que se tornam 256. Use sua imaginação para prever o horror de como vamos ficar em uma semana. A epidemia desacelera quando nos resguardamos. Se não o fizermos, as UTIs ficarão sobrecarregadas e milhares vão morrer. É nosso dever cívico ficar em casa, higienizar e não tocar em nossos rostos. Eu digo isso com toda a seriedade.

Pare tudo agora, e poderemos voltar a vida normal novamente em algumas semanas, descansados e mais sábios, e nossos médicos de UTI não ficarão sobrecarregados, nem morrerão, e nossas enfermeiras de emergência não ficarão em quarentena. Quanto mais esperarmos, maior será o preço a pagar.

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Em Psychology Today, 12 de março de 2020.

Tradução: Lilian Carvalho
Revisão: Eli Vieira

Emily Deans

A Dra. Emily Deans é psiquiatra e atua em Massachusetts, Estados Unidos. Leciona na Harvard Medical School.

Notas   [ + ]

1. N. do T. Confira os dados mundiais de infecção com atualização automática em português aqui.