Ativismo, Política, Sociedade

Como a homofobia islâmica é empoderada pelo silêncio da esquerda

Nas comunidades muçulmanas, a homossexualidade está intrinsecamente ligada à ansiedade, intimidação, violência e, em alguns casos, morte. Para muitos, ela implica viver uma existência fechada por medo de ser condenado ao ostracismo ou à rejeição. Os ensinamentos teológicos islâmicos, disseminados por instituições religiosas e defendidos por líderes comunitários, vão desde a pregação da nossa execução até o conselho para que vivamos uma vida de celibato. Ainda assim, vozes da esquerda, historicamente um reduto de apoio LGBTI, não condenam suficientemente o tratamento abismal de gays e bissexuais de herança muçulmana, nem se mobilizam adequadamente contra essa forma específica e brutal de homofobia.

Este texto irá examinar a homofobia na comunidade muçulmana e explorar a relutância da esquerda em criticá-la de maneira consistente e produtiva. Não explorará o crescimento do movimento muçulmano LGBTI, que defende a igualdade e a representação de indivíduos LGBTI; em vez disso, ele se concentrará na resposta à homossexualidade da comunidade muçulmana dominante e mais ampla.

Homofobia no Mundo Muçulmano

Não é um exagero espúrio afirmar que a homofobia é mais comum entre os muçulmanos do que entre outras comunidades religiosas. De fato, pesquisas estatisticamente relevantes de atitudes sociais sustentam consistentemente a verdade dessas afirmações. Essa evidência fornece um quadro sombrio, particularmente ao avaliar as atitudes em países de maioria muçulmana, de onde se originam as comunidades da diáspora ocidental.

Uma pesquisa americana de 2017 descobriu que 51% dos muçulmanos entrevistados expressaram apoio à igualdade no casamento, um número maior em relação aos anos anteriores – 34%, porém, ainda se opõem a ele. Os meios de comunicação falsamente saudaram esses 51% como sendo algum tipo de sucesso sobre o cristianismo, citando o número para justificar manchetes como “A maioria dos muçulmanos dos EUA agora apoia o casamento gay, enquanto os cristãos evangélicos brancos permanecem na oposição”. Digno de nota nesta tentativa de ofuscamento é a comparação entre uma facção conservadora de cristãos e uma figura combinada de muçulmanos liberais e conservadores. Em uma comparação mais honesta entre conservadores cristãos e muçulmanos, os dados mostram um retrato muito mais incisivo da comunidade muçulmana conservadora.

Na Grã-Bretanha, onde os muçulmanos são mais conservadores do que nos EUA, a pesquisa Gallup Coexist Index de 2009 perguntou a 500 muçulmanos se eles acreditavam que atos homossexuais eram moralmente aceitáveis. 100% concordaram que não, uniformemente apresentando atos homossexuais como imorais. Nos anos seguintes, tem havido alguma tração positiva em torno das atitudes dos muçulmanos do Reino Unido em relação à homossexualidade; no entanto, a imagem continua opressiva. Mais notavelmente, uma pesquisa do ICM de 2015 descobriu que 52% dos muçulmanos britânicos achavam que a homossexualidade deveria ser ilegal, com apenas 18% declarando que deveria ser legal. Igualmente condenatório foi que 47% consideraram inaceitável que homossexuais pudessem trabalhar como professores.

A nível internacional, os dados sobre a homofobia islâmica são ainda mais alarmantes. Um estudo global do PEW de 2013 sobre as atitudes muçulmanas relatou uma condenação quase unilateral da homossexualidade em comunidades muçulmanas em todo o mundo. Os países que expressaram a maior aceitação da homossexualidade entre sua população muçulmana foram Uganda (12%), Moçambique (11%) e Bangladesh (10%), com os outros 37 países, todos de maioria muçulmana, mostrando menos de 10%.

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Todos os oito estados ou territórios que impõem a pena de morte para homossexualidade são de maioria muçulmana. Entre aqueles que não o fazem, muitos prendem pessoas por serem LGBT. Todas essas punições são derivadas de interpretações convencionais da Lei Sharia e da Jurisprudência Islâmica, que posiciona a homossexualidade como um pecado grandioso comparável à sodomia e adultério. Quando as pessoas são executadas pelo crime de serem LGBT, os métodos de execução preferidos são o enforcamento ou apedrejamento público. Sem surpresa, esse clima internacional de execução e prisão incentiva a violência da multidão contra as pessoas LGBT.

Em Brunei, onde as leis existentes já tornavam a homossexualidade punível com pena de prisão por até 10 anos, foi feita uma tentativa em 2019 para introduzir a pena de morte (por apedrejamento) para criminosos condenados, apesar de uma moratória de longa data sobre as execuções por qualquer crime. Justificada por um novo código penal que refletia uma interpretação estrita da Lei Sharia, a política levou a um protesto global significativo, que incluiu boicotes e protestos de celebridades. O governo de Brunei posteriormente cedeu à pressão internacional, retrocedendo sua posição para esclarecer que a moratória sobre a pena de morte se estenderia aos condenados por “crimes” cobertos pela nova legislação.

Impacto na Esfera Privada

Embora uma contextualização internacional da homofobia islâmica seja importante, seria errôneo presumir que seu impacto prejudicial sobre os indivíduos LGBTI ocorre exclusivamente em lugares distantes como o Afeganistão e o Irã. No Ocidente, a cultura da honra muitas vezes prospera dentro das comunidades muçulmanas: trata-se de um mecanismo comunitário de controle social no qual táticas coercitivas, como a rejeição, a humilhação e a perda de status comunitário são utilizadas para pressionar os membros das famílias a tomarem medidas corretivas contra aqueles que não se conformam com as regras islâmicas.

Em 2017, Jahed Choudhury, um muçulmano do Reino Unido de ascendência de Bangladesh, casou-se com seu parceiro branco no que foi chamado de “o primeiro casamento gay muçulmano”. Ele foi destaque na imprensa com seu marido, sendo entrevistado em rede nacional. Algumas semanas depois, ele contou a um entrevistador da BBC que membros da comunidade muçulmana cuspiram nele na rua. Revelou também que estava recebendo comentários de ódio nas redes sociais, e descreveu uma mensagem específica de alguém da comunidade ameaçando jogar ácido nele na próxima vez que o visse. Choudhury então se desculpou com a comunidade muçulmana em rede nacional pelo crime de ter se casado com seu parceiro do mesmo sexo tão publicamente. Em outras palavras, as ameaças de violência e intimidação tiveram sucesso.

Também em 2017, Mahad Olad, um ex-muçulmano gay americano, foi convidado por sua família a viajar ao Quênia, que faz parte da comunidade da diáspora somali. Quando eles chegaram, sua mãe confiscou o passaporte de Olad e o informou de que sabia que ele era gay e que havia deixado o Islã. Para “salvá-lo”, ela decidiu mandá-lo aos xeques somalis, que o trariam de volta ao Islã e o endireitariam. Somente com a ajuda de ex-muçulmanos da América do Norte Olad conseguiu escapar de seus sequestradores e retornar aos EUA.

Em outro incidente de 2017, Siddika Reza, que era secretária-geral da organização de fé islâmica NASIMCO (Organização das Comunidades Muçulmanas Shia Ithna-Asheri na América do Norte), participou do casamento público de seu filho com seu noivo. Depois que ela compartilhou fotos do casamento em suas redes sociais, mais de 1000 membros da comunidade muçulmana xiita assinaram uma petição pedindo que ela renunciasse, alegando que seu endosso ao casamento de seu filho “vai contra as legítimas interpretações majoritárias de Jaffari fiqh, que a NASIMCO deve defender ”- essencialmente, alegando que o endosso público do casamento de seu filho era um endosso ao pecado e, portanto, anti-islâmico.

Como resultado, Reza renunciou ao cargo. A coerção social da comunidade muçulmana teve sucesso em censurar um membro por ser muito tolerante; neste caso, garantiu que a aceitação de um filho pela própria mãe fosse devidamente punida.

Em 2019, Seran M (nome completo não revelado), um suíço de 17 anos de ascendência iraquiana, acordou na cama com seu pai parado diante dele, segurando uma faca e gritando: “Você é gay? Você é gay?” O pai então começou a cortar a garganta de Seran. Felizmente, o adolescente conseguiu pular uma varanda e obter ajuda dos vizinhos; ele foi colocado em coma induzido num hospital e conseguiu sobreviver.

Embora essas manifestações explícitas de homofobia islâmica sejam relatadas pela mídia, é imperativo entender o quanto ela permanece oculta. Muitos LGBTs de herança muçulmana são forçados a viver estilos de vida enrustidos para evitar enfrentar esses tipos de consequências, e alguns chegam a ter casamentos falsos para evitar serem detectados. O mecanismo de controle da cultura da honra muitas vezes faz com que os parentes cedam à pressão da comunidade e renegem seus parentes, separando famílias e causando repercussões psicológicas traumáticas para as vítimas.

Impacto na Esfera Pública

A influência da homofobia islâmica não se limita à esfera doméstica e privada. Seus adeptos possuem como ambições garantir que os direitos LGBT não sejam aceitos e que a homossexualidade não seja normalizada na sociedade em geral, o que os leva a assumir comando na arena pública.

Em 2019 a Anderton Park School, escola localizada em Birmingham, Reino Unido, foi alvo de protestos de membros da comunidade muçulmana da cidade por causa de um programa educativo do ensino primário denominado “No Outsiders”, bem como outro material que, alegaram eles, promovia a “agenda gay”. Antes de um mandado judicial forçando a realocação dos protestantes, o protesto foi realizado imediatamente do lado de fora dos portões da escola, criando um ambiente assustador e intimidador para os alunos. Vídeos podem ser encontrados online de adultos da comunidade muçulmana de Birmingham gritando “Vergonha! Vergonha! Vergonha!” através de megafones nos portões da escola, com as crianças entre eles encorajadas a cantar junto. Tal conduta deplorável deve ter causado um impacto prejudicial em qualquer adolescente presente que estivesse em processo de aceitação da própria sexualidade. Esses protestos continuaram por aproximadamente nove meses e incluíram a exibição de faixas que diziam: “Adão e Eva, não Adão e Ivo”.(1)N. da T.: Originalmente em inglês, “Adam and Eve, not Adam and Steve”.

Em um esforço para mostrar apoio a um professor que se recusou a ceder à pressão, indivíduos LGBT de Birmingham decidiram ir à escola e pendurar sinais de solidariedade, como fotos de corações e arco-íris, nos portões da escola. Eles decidiram fazer isso à noite para que não encontrassem os manifestantes e corressem o risco de um conflito direto. Infelizmente, eles não haviam considerado que era Ramadã e que a comunidade muçulmana estaria acordada tarde da noite, comendo antes de jejuar novamente no dia seguinte. No vídeo do confronto resultante, membros do sexo masculino da comunidade muçulmana podem ser vistos criando um clima de medo e intimidação, gritando com as pessoas LGBT por entrarem em “nossa comunidade”.

Por fim, alguns muçulmanos começaram a atirar ovos nos LGBTs, que então partiram, abalados com todo o episódio. Seus símbolos de apoio nos portões da escola foram posteriormente vandalizados. Os protestos eventualmente foram permanentemente banidos pelos tribunais, mas é digno de nota que a Anderton Park suspendeu o ensino do programa “No Outsider” por um período significativo de tempo – uma vitória definitiva para as forças que perpetuam a homofobia islâmica.

A Traição da Esquerda

Levando em consideração os dados e o visível impacto negativo da homofobia islâmica, seria de se esperar que a esquerda, que geralmente se vê como bastiã do apoio aos direitos LGBT, enfrentasse o desafio de opor-se a ela. Lamentavelmente, não é esse o caso.

Considere o clamor que vemos quando cristãos assadores de bolos recusam serviços comerciais para pessoas LGBT: a condenação vocal generalizada da esquerda atinge todos os continentes. Da mesma forma, há protestos públicos esquerdistas em torno da terapia de conversão cristã, galvanizando todo um movimento por sua proibição legislativa. Tal ação é mobilizada por organizações LGBT, comentaristas políticos, ativistas, organizações de direitos humanos e até celebridades, que usam uma retórica na qual a fé cristã é frequentemente criticada, ridicularizada e posicionada como arcaica e irrelevante – nenhum clamor desse tipo, entretanto, surge quando a homofobia islâmica levanta a cabeça. A esquerda permanece em silêncio quando, por exemplo, clérigos muçulmanos tentam exorcizar demônios gays de membros da comunidade muçulmana.

Como se o silêncio da esquerda não fosse prejudicial o suficiente para os direitos LGBT, suas acusações de racismo e islamofobia contra aqueles que buscam criticar a homofobia islâmica são uma traição flagrante.

Nos protestos escolares de Birmingham mencionados acima, a comunidade LGBT decidiu realizar um contra-protesto depois que os tribunais forçaram os manifestantes muçulmanos a se mudarem dos portões da escola para um local mais distante. Um pequeno contingente de pessoas, predominantemente brancas, armadas com violões e bandeiras de arco-íris, estava do outro lado da rua dos manifestantes muçulmanos, dedilhando e cantando canções de amor. Dias depois, em um jornal nacional, Saima Razzaq, uma ativista muçulmana local que se descreve como “queer”, afirmou que as ações de contra-manifestantes LGBT brancos “exalam uma mentalidade colonial”. Razzaq foi fundamental na resposta da comunidade de Birmingham aos protestos homofóbicos, mas em vez de receber o apoio dos aliados brancos, ela os caracterizou como “salvadores brancos” (White saviours) e declarou que “as respostas devem vir de dentro de nossa própria comunidade”.

A mensagem era clara: você não pode defender os direitos LGBT no Reino Unido se você for branco e sua oposição homofóbica for não-branca, e fazer isso o torna racista e neocolonialista. Não importava que os muçulmanos que protestavam contra a educação sobre questões LGBT tivessem deixado claro que queriam que ela fosse interrompida em nível nacional em um país de maioria branca. Somente pessoas da mesma cor e fé tiveram permissão para liderar esse desafio. Os direitos humanos universais não podiam mais ser lutados universalmente.

Na marcha do Orgulho LGBT de 2017, o Conselho de Ex-Muçulmanos da Grã-Bretanha (CEMB) marchou para desafiar a homofobia islâmica – com foco particular na Chechênia, onde relatos de perseguição LGBT e campos de concentração para gays ultrajaram a comunidade. Eles carregaram faixas listando os países que determinaram a pena de morte para a homossexualidade, e exibiram placas e cartazes provocativos zombando do Islã. Perto deles, um contingente separado de manifestantes do Orgulho ostentava cartazes zombando do Cristianismo. Afinal, a passeata do Orgulho sempre foi um lugar seguro para criticar a homofobia, fosse ela religiosa, política ou cultural.

Durante a passeata, a polícia invadiu o CEMB para avisar que suas placas eram ofensivas e solicitar que fossem retiradas. No entanto, eles não abordaram os detentores de sinais que zombavam do Cristianismo. O CEMB recusou o pedido e continuou a marcha com suas faixas e cartazes.

Dias depois, a mesquita de East London escreveu uma queixa formal à organização responsável pela passeata citando sua objeção a ser nomeada como uma mesquita que “incitou o assassinato e o ódio aos LGBT”. Imaan, uma organização LGBT muçulmana, divulgou um comunicado à imprensa condenando o protesto. Ambas as organizações alegaram que os cartazes dentro do protesto eram islamofóbicos e causaram danos aos muçulmanos. A organização da passeata emitiu um comunicado a um jornal nacional no qual afirmava que não toleraria a islamofobia e, em seguida, suspendeu o CEMB de marchar em passeatas subsequentes do Orgulho LGBT enquanto se aguardava uma investigação. A investigação demorou 8 meses, mas no final o CEMB foi inocentado das acusações e acabou por poder participar na marcha do ano seguinte sem quaisquer restrições.

No entanto, uma mensagem foi comunicada ao público em geral de que as críticas à homofobia islâmica são inaceitáveis. Nesse caso, não importava que alguns dos críticos fossem muçulmanos e outros ex-muçulmanos. Não importava que quase todos os manifestantes fossem refugiados e membros da diáspora, indivíduos que cresceram e viveram sob o Islã e que eram de famílias muçulmanas. Não importava que muitos deles tivessem fugido de países e comunidades onde a prisão ou a morte eram a pena para sua sexualidade. Qualquer crítica à homofobia islâmica foi considerada islamofóbica (anti-muçulmana) e racista.

Em 2020, o icônico reality show “RuPaul’s Drag Race” convidou o ator Jeff Goldblum para aparecer como jurado convidado. As drag queens competidoras desfilaram sob o tema americano “Stars and Stripes”.(2)N. da T.: “Estrelas e Linhas”, em referência à bandeira americana. A competidora iraniana-canadense Jackie Cox usava um caftan listrado vermelho e um hijab azul delineado com 50 estrelas de prata; ela afirmou: “Você pode ser do Oriente Médio, pode ser muçulmano e ainda pode ser americano”.

Reprodução: The Independent

Goldblum, instigado pela roupa da artista, perguntou: “Há algo nesta religião que é anti-homossexualidade e anti-mulher? Isso complica o problema? Estou apenas levantando e pensando em voz alta e talvez sendo estúpido. ” RuPaul respondeu que a apresentação era complexa e que a arte Drag “sempre balançou árvores”.

A mídia social e convencional explodiu com condenações ao comentário de Goldblum, acusando-o de racismo e islamofobia. Seus comentários foram rotulados como perigosos. A organização Muslim Advocates emitiu um comunicado instando Goldblum a se desculpar; eles alegaram: “Não se desculpar por esses comentários é um endosso silencioso ao preconceito anti-muçulmano”. Em outras palavras, mais uma mensagem de condenação para aqueles que buscam questionar a homofobia islâmica (assim como o sexismo islâmico, neste caso), e com tal questionamento sendo caracterizado como anti-muçulmano.

Há uma ironia dolorosa que não pode ser perdida em um homem gay de herança iraniana (Jackie Cox) usando um hijab para simbolizar as mulheres muçulmanas. As mulheres muçulmanas no Irã há muito lutam contra o hijab obrigatório e as leis de véu forçado. À medida que movimentos como a Quarta-feira Branca ganharam força nos últimos anos, as mulheres iranianas estão cada vez mais resistindo e desafiando o hijab. Leis teocráticas e misóginas permitem que as mulheres sejam punidas por aparecerem em público com o cabelo à mostra. A BBC relata que 35 mulheres foram presas desde 2017, somente na capital Teerã. Algumas dessas mulheres relataram ter sido torturadas e espancadas.

Embora essa traição da esquerda seja abismal, sua tentativa de policiar a resposta do público à arte de Jackie é nada menos que uma distopia orwelliana. Por meio de sua arte, um artista drag foi capaz de expressar suas “dúvidas” sobre a forma como as pessoas LGBT são tratadas nas comunidades muçulmanas e provocar questionamentos sobre o assunto em seu público. No entanto, a resposta da esquerda foi lançar acusações de racismo ao público e evitar qualquer diálogo útil em torno da verdadeira questão. A mensagem foi novamente clara: mesmo quando apresentada com arte por e sobre pessoas queer de herança muçulmana, não se pode examinar ou questionar a homofobia islâmica. Todo diálogo em torno do assunto deve colocar o Islã sob uma luz positiva; fazer o contrário é anti-muçulmano, islamofóbico e racista.

Felizmente, Goldblum não se desculpou – mas o governo iraniano também não se desculpou pela execução de pessoas LGBT inspiradas no Islã e na Sharia. O Irã ainda aplica a pena de morte para o “crime” de duas pessoas do mesmo sexo se amarem. O grupo Muslim Advocates é rápido em se indignar com uma cena do RuPaul’s Drag Race, mas não parece ter solicitado ao governo iraniano um pedido de desculpas pelos assassinatos sancionados pelo estado, nem declarou ser anti-muçulmano o assassinato de gays e bissexuais muçulmanos no Irã.

O Islã não é uma raça

A palavra islamofobia é uma fusão deliberada que mistura a crítica a uma ideologia (o Islã) com a crítica a um povo (muçulmanos). Ela permite o silenciamento de quaisquer críticos do Islã por meio da acusação de islamofobia, que infere a acusação de ódio contra muçulmanos – algo que seria muito melhor descrito como muçulmanofobia ou preconceito anti-muçulmano. Devido a essa sobreposição, o medo de serem acusados de “islamofóbicos” torna indivíduos hesitantes em destacar a natureza abominável da homofobia islâmica, suas raízes teológicas e a correspondente jurisprudência islâmica que resulta na perseguição contínua de pessoas LGBT.

O Islã é um conjunto de ideias exatamente como é o Cristianismo, o Capitalismo, o Comunismo e o Hinduísmo. Ideias devem estar abertas a escrutínio, avaliação e crítica. Elas devem estar abertas à sátira e ao ridículo. Críticas à ideias levam ao avanço da sociedade, como pode ser observado na substituição generalizada da superstição pela razão e pelo método científico. O sufocamento de críticas ao Islã acaba por ulteriormente prejudicar muçulmanos e indivíduos de herança muçulmana; tal censura permite que práticas regressivas e prejudiciais (como exorcismos islâmicos de gays no Reino Unido) sejam continuadas, em vez de examinadas e interrompidas.

A maioria dos adeptos de uma ideologia pode ser parte de uma demografia racial particular, seja na realidade ou na imaginação popular. A crítica a essa ideologia não é, por padrão, uma crítica da demografia racial. Se fosse, seria possível argumentar que a crítica ao capitalismo é anti-branca, a crítica ao comunismo é anti-chinesa e a crítica ao hinduísmo é anti-sul-asiática/indiana. É também importante lembrar que, em qualquer caso, os muçulmanos são um grupo muito diverso racial e etnicamente.

Os muçulmanos são pessoas e, como tal, devem ser protegidos da intolerância. Embora preconceitos sejam inaceitáveis, devemos reconhecer que usar fatos para destacar crenças e atitudes problemáticas dentro da comunidade muçulmana não caracteriza preconceito – principalmente quando os próprios fatos destacam a discriminação galopante contra uma minoria sexual que muitas vezes precisa de proteção. Destacar a agressão e perseguição homofóbica é uma responsabilidade que recai sobre a sociedade civil, e essa responsabilidade inclui a homofobia islâmica.

É hipócrita da esquerda permitir a condenação e destaque consistente da homofobia cristã, posicionando os cristãos (e, por extensão presumida, os brancos) como pensadores robustos, racionais e críticos, capazes de resistir a essas críticas, enquanto caracterizam os muçulmanos como sujeitos frágeis que precisam ser protegidos da dissonância cognitiva e do pensamento crítico. Essa adesão à “fragilidade islâmica” é racista, paternalista e condescendente.

Qualquer foco na homofobia islâmica é inevitavelmente desafiado pela esquerda com a pergunta: “E quanto aos cristãos?” É perfeitamente aceitável focar numa forma específica de homofobia. Na verdade, é essencial que isso seja feito e, ao fazê-lo, é apropriado enfocar as piores formas de homofobia. A tentativa de abordar a homofobia islâmica usando uma abordagem adaptada à homofobia cristã, ou um modelo projetado para combater a homofobia na China, deixará de lado muitas das nuances específicas da fé islâmica. Ela também não fará sentido para um público muçulmano que, em geral, considera o cristianismo ou o ateísmo errôneos ou mesmo heréticos.

Um foco específico na homofobia islâmica permite a compilação e avaliação focadas de dados, teologia, história e atitudes. Isso, então, leva a sugestões específicas para soluções, alocação de recursos, responsabilidade e cronogramas para melhorias. Para planejar medidas corretivas específicas, devemos olhar para a questão específica.

Não devemos ser silenciados por acusações de islamofobia ou racismo em nossos esforços para erradicar a forma mais perniciosa de homofobia que atualmente persegue pessoas LGBT em todo o mundo. Em vez disso, devemos permanecer firmes e aumentar nosso escrutínio da homofobia islâmica, tendo ela e a comunidade muçulmana nos mesmos padrões que aplicamos ao resto da sociedade. Fazer menos do que isso é preconceito de baixas expectativas e um duplo padrão racista.

Original em Queer Majority, março de 2021.

Tradução: Ágata Cahill

Revisão: Felipe Novaes

Leves adaptações foram feitas para fins de clareza.

Créditos da imagem: iStock / lupashchenkoiryna

Jimmy Bangash
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Jimmy Bangash é um psicoterapeuta que cresceu em uma tradicional família pashtun no Reino Unido. Ele é o porta-voz do Conselho dos Ex-muçulmanos da Grã-Bretanha, onde trabalha para promover os direitos humanos das pessoas que deixaram o Islã.

Editora sênior do Xibolete e autora at | + posts

Notas

Notas
1 N. da T.: Originalmente em inglês, “Adam and Eve, not Adam and Steve”.
2 N. da T.: “Estrelas e Linhas”, em referência à bandeira americana.