Amenidades

Uma causa para unir a todos nós: “Imagine”, de John Lennon, é uma música ridícula

Nesses tempos terríveis de polarização, todos nós — progressistas e direitistas, Karens e pombinhos do coronavírus(1)N. do T.: Provável referência a notícias sobre governos estarem divididos entre pombos e gaviões na questão do coronavírus. — precisamos de uma causa em torno da qual possamos nos unir. Mas a questão é: qual? Na quarta-feira [03/06/2020], Bill de Blasio deu-nos a resposta: “Não pretendo julgar a questão”, disse o prefeito de Nova York, referindo-se aos piores tumultos que os EUA já viram no meu tempo de vida, “mas isso me lembra da música ‘Imagine’, de John Lennon. Tocamos na minha posse. Acho que todos que escutam essa canção na íntegra pensam num mundo em que as pessoas se dão de forma diferente.”

“Imagine” é, apesar da existência de “Ice Ice Baby” e de “Então é Natal”,(2)N. do T.: Adaptei a segunda canção citada, White Christmas, para outra igualmente irritante em língua portuguesa. a pior música já gravada. Obrigado, sr. Prefeito, por nos lembrar.

Por onde começar? Pela introdução decadente de quatro tempos? Pela choradeira nasalada e soporífera da voz de Lennon? Pela safadeza estultificante de terminar os versos com “youuuuuuuu” e depois começar o refrão com a mesma palavra? Pelo resto da letra, que insulta a inteligência com tal ferocidade que tenho certeza que cantá-la viola a Convenção de Genebra? Pela parte em que a estrela do rock que escreveu a canção em cerca de uma hora (dá pra notar, aliás) em uma de suas várias mansões de luxo encoraja você a talvez considerar “não ter posses”, provavelmente incluindo roupa íntima e escova de dentes, e depois insiste, de forma passivo-agressiva, que você é tão apegado às suas coisas que você não consegue nem contemplar a ideia? Pela outra parte, onde o mesmo cara não apenas prevê um mundo em que não haverá nem mesmo um único país, mas que terá literalmente país nenhum, e depois triplica a aposta ao sugerir que é “fácil” vislumbrar esse estado de coisas? Pelo modo como a má qualidade dessa música é tamanha que te força a questionar o valor de todas as coisas, incluindo o dó maior e a palavra “the”?

Vamos encarar a realidade. Embora os vocais de canto sussurrado e a progressão dedilhada de caixinha de música barata sejam desagradáveis ao extremo, essa música seria aceitável se estivesse enfiada no lado quatro do Álbum Branco, mas com letra totalmente diferente (algo como “Eu amo muito meu Rolls Royce”). O verdadeiro problema com a “Imagine” é o tema dela, se é que podemos usar essa palavra para descrever uma série de proposições disparatadas entregues sem qualquer nexo lógico detectável.

Comecemos com a salada de marxismo, anarquismo e existencialismo. Em lugar nenhum da música existe alguma pista de como as hipóteses que Lennon pede que consideremos poderiam ser concretizadas. Em vez disso, o que ele faz é o equivalente político de nos dizer que a magia real estava dentro de nós esse tempo todo. Um problema ainda mais sério é que, mesmo se versos adicionais de alguma forma delineassem uma série de passos práticos que nos levassem ao mundo que ele vislumbra, ninguém gostaria de viver nesse mundo. É porque é fundamentalmente niilista, é uma visão em que “hahaha nada importa” é elevado a um princípio de primeira ordem. Um mundo em que não há nada pelo que valha a pena morrer é um mundo em que exatamente zero das coisas que nos dão sentido e prazer poderiam existir. O efeito é pior que o purgatório: é uma verdadeira visão do inferno.

Vale a pena admitir que, se a “Imagine” fosse menos popular, seria muito menos irritante, ao menos para alguns de nós. Não é culpa de Lennon que tocar o pior single dele é a primeira resposta a tudo de ruim que tenha acometido à raça humana no último meio século, mais ou menos, dos ataques de 11 de setembro de 2001 à existência da banda Train, que tocou a música na Times Square em 2013. A vontade de impor “Imagine” às vítimas de ataques terroristas e desastres naturais, e às pessoas que só querem ter uma compilação de outras gravações solo de Lennon, está à beira da sociopatia.

É por isso que, quando as pessoas (por exemplo, os editores da revista Rolling Stone, que deram a ela o título de terceira melhor música de todos os tempos numa edição especial de 2004 de seu catálogo de estilo de vida boomer) dizem que a “Imagine” é ótima, ou até mesmo sua música favorita, e que ela tem algum tipo de valor emocional para elas, eu fico com vontade de sair quebrando tudo. Que alguém poderia de fato curtir a música como uma obra musical já é difícil de acreditar. (Pessoalmente, eu preferiria ouvir “Revolution 9” ou até Two Virgins, o álbum de 29 minutos de John e Yoko peidando num gravador e brincando com sinos de vento que de alguma forma chegou à lista dos mais ouvidos em 1968.) Mas pensar que ela é profunda, e, pior ainda, que ela é a resposta para problemas sérios como a brutalidade policial e pilhagens e recessão econômica? Não é coisa de Dom Quixote: é ofensivo.

Estou ciente de que alguns leitores discordarão do meu veredito. Se você é um desses, convido-lhe, em conformidade com a sua música favorita, a imaginar um mundo em que esta coluna de opinião não existe, junto com o computador ou dispositivo móvel em que você a lê — e o inferno em que o demônio gargalha com maldade ao saber dos seus pecados contra o bom gosto musical e a política com sanidade.

Por Matthew Walther, jornalista e escritor, em The Week, 4 de junho de 2020.

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Biólogo geneticista, professor, tradutor.

Notas   [ + ]

1. N. do T.: Provável referência a notícias sobre governos estarem divididos entre pombos e gaviões na questão do coronavírus.
2. N. do T.: Adaptei a segunda canção citada, White Christmas, para outra igualmente irritante em língua portuguesa.