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Psicologia evolucionista: respondendo a sete principais equívocos

Abordagens evolucionistas prometem revolucionar o campo da psicologia e unificá-la com as ciências biológicas. Mas alguns equívocos importantes impedem que acadêmicos e público em geral apliquem essa abordagem ao estudo do comportamento. Este ensaio aborda os mais abrangentes desses equívocos.

Equívoco 1:

Evolução e aprendizado são explicações conflitantes para o comportamento

As pessoas costumam presumir que, se algo é aprendido, então não pode ser fruto da evolução e vice-versa. Essa é uma forma enganosa de colocar a questão por três razões principais.

Primeiro, muitas hipóteses evolucionistas são sobre aprendizagem. Por exemplo, a alegação de que os humanos foram moldados pela evolução para temer cobras e aranhas não significa que esse medo está presente desde o nascimento. Em vez disso, significa que os humanos foram moldados pela evolução para adquirir medo de cobras mais facilmente do que de outros animais. Estudos clássicos mostram que macacos podem adquirir medo de cobras por meio da observação, e tendem a adquiri-lo mais rapidamente do que em relação a outros estímulos, como coelhos ou flores. Também é mais difícil fazer macacos desaprenderem o medo de cobras do que de outros animais. Ou seja, a alegação de que o medo de cobras tem raiz filogenética não denota que nascemos com esse medo, mas sim que estamos biologicamente preparados para aprender reações aversivas a alguns estímulos mais rapidamente do que a outros.

Em segundo lugar, a aprendizagem ocorre porque ao longo da evolução o cérebro foi moldado com mecanismos neurocognitivos que a permitem ocorrer. Considere o fato de que crianças e filhotes de cachorro podem aprender, mas se você tentar ensinar-lhes a mesma coisa – como francês ou a teoria dos jogos -, eles acabam aprendendo coisas diferentes. Por quê? Porque cães e crianças humanas foram dotados pela evolução com mecanismos que viabilizam aprender coisas diferentes. O que os organismos aprendem, e como o aprendem, depende da natureza dos mecanismos de aprendizagem alojados em seus cérebros.

Uma analogia com a percepção ajuda a ilustrar o ponto. Os organismos percebem em virtude de mecanismos perceptuais em seus cérebros e órgãos dos sentidos. Para entender como esses mecanismos perceptivos funcionam e que tipo de resultado produzem, devemos olhar para o processo causal que os construiu: a evolução. Isso é ponto pacífico quando se trata de percepção, mas é menos amplamente aceito quando se trata de aprendizagem. Organismos só aprendem porque são dotados de um cérebro moldado pela evolução para ser capaz disso. Aprendizagem e evolução não são explicações conflitantes, elas são parceiras explicativas naturais.

Em terceiro lugar, interpretar a evolução e o aprendizado como automaticamente em conflito é um erro porque eles não estão sequer localizados no mesmo nível de análise: o aprendizado é uma explicação proximal, enquanto a evolução é uma explicação distal. (O nível proximal de análise explica como algo funciona, enquanto o nível distal explica por que esse algo funciona dessa maneira, ou por que o sistema foi construído dessa forma em primeiro lugar). Dizer que algo é produto da evolução não implica nada sobre como o comportamento ocorre durante a vida de um organismo: pode envolver algum aprendizado, nenhum aprendizado ou muito aprendizado. Os dois tipos de explicação são, portanto, compatíveis.

possível que hipóteses evolutivas específicas entrem em conflito com hipóteses de aprendizagem específicas, como quando uma hipótese evolutiva particular produz previsões proximais que conflitam com aquelas feitas por uma hipótese de aprendizagem particular. O ponto, no entanto, é que não é necessário que as duas conflitam, e há muitos exemplos nos quais a evolução e o aprendizado são perfeitamente compatíveis. O erro é pensar que as duas explicações estão automaticamente em conflito simplesmente porque uma envolve aprendizado e a outra envolve evolução).

Equívoco 2:

Os produtos da evolução devem estar presentes no nascimento (ou devem surgir muito cedo no desenvolvimento)

Um segundo equívoco comum é que os produtos da evolução devem estar presentes no nascimento – ou, pelo menos, devem surgir no início do desenvolvimento. Mas não é assim que a seleção natural funciona: ela constrói adaptações que são ativadas durante a fase de desenvolvimento em que são necessárias, e não apenas adaptações que estão presentes num momento arbitrariamente selecionado como o do nascimento. Dentes, seios e pêlos faciais ilustram bem isso: todos são produtos incontestáveis da evolução, mas não estão presentes no nascimento. Da mesma forma, ninguém duvida que os pássaros desenvolveram a capacidade de visão e voo, apesar de muitos de seus filhotes não serem capazes de nenhuma dessas coisas. Afirmar que uma tendência psicológica ou comportamental é produzida pela evolução não é afirmar que ela estará presente logo ao nascer, mas sim que ela se desenvolve de forma fidedigna em todos ou na maioria dos membros de uma espécie durante o estágio de desenvolvimento apropriado da vida do organismo.

Para se desenvolver adequadamente, os produtos da evolução frequentemente requerem certas formas de input (entrada) ambiental – o que nos leva diretamente ao próximo equívoco.

Equívoco 3:

Evolução implica em determinismo genético

Não importa o quão difundida seja essa crença, uma abordagem evolucionista da psicologia não implica que o comportamento é geneticamente determinado. Há duas maneiras de avaliar este ponto.

Primeiro, como todos os outros cientistas que estudam biologia, os psicólogos evolucionistas concordam com uma visão interacionista que afirma que tudo em nossas mentes, corpos e cérebros é co-determinado em conjunto pelos genes e pelo ambiente.

Em segundo lugar, uma perspectiva evolucionista enfatiza a centralidade do ambiente, apontando sua importância crucial em todas as fases do processo causal: a evolução inicial das adaptações, seu desenvolvimento ao longo da vida e seus gatilhos no presente imediato. Em outras palavras, uma abordagem evolutiva sugere que a) as pressões ambientais conduzem a evolução das adaptações em primeiro lugar, b) as adaptações requerem dados ambientais para se desenvolverem adequadamente durante a vida de um organismo e c) os gatilhos ambientais são necessários para ativar a adaptação no momento presente. Em todas as três escalas, a perspectiva evolucionista coloca o ambiente no centro do palco.

Então, por que (algumas) pessoas persistem em acreditar que os psicólogos evolucionistas são deterministas genéticos? Uma possibilidade é que os críticos não estejam conseguindo entender a diferença entre dizer que adaptações possuem base genética e que adaptações são geneticamente determinadas (todas as adaptações têm uma base genética, mas não são geneticamente determinadas). Muitos críticos podem também não estar cientes da visão amplamente difundida entre os cientistas evolucionistas de que os mecanismos que evoluíram ao longo da seleção natural geralmente têm herdabilidade igual a zero.(1)N. da T.: Explicando: a herdabilidade é um método de inferir a base genética de características que só cumpre esse papel se houver variação dessa característica, tanto no fenótipo quanto no genótipo responsável por ela. Havendo variação, como é o caso da orientação sexual, é possível tentar estudar quanto dessa variação decorre de influências hormonais, socioambientais ou genéticas (mais aqui). Tome de exemplo, por outro lado, que a herdabilidade de ter um coração é zero, já que todos os humanos vivos apresentam um coração independente de sua ancestralidade (não há variação significativa do fenótipo). A herdabilidade portanto também não é um bom método para descobrir a base genética de algumas características que são adaptativas, dado que elas não apresentam variação. Para entender mais sobre herdabilidade, leia este texto. Como acontece com outros conceitos errôneos sobre a psicologia evolucionista, os críticos ocasionalmente parecem ter formulado suas opiniões sem ter se envolvido com a literatura primária da área.

Equívoco 4:

Se um comportamento varia entre culturas, não é um produto da evolução

Essa ideia faz sentido intuitivo, mas ainda erra o alvo. O problema é o seguinte: o pensamento evolucionista não sugere que o comportamento será uniforme entre as culturas, mas sim que a maquinaria neurocognitiva que produz o comportamento será uniforme entre as culturas. Esta é uma afirmação muito diferente.

Considere a linguagem. Pessoas que crescem em culturas diferentes aprendem idiomas diferentes. Isso significa que nossas habilidades linguísticas não são um produto da evolução? Dificilmente. Significa apenas que a seleção natural esculpiu uma habilidade universal de aprender idiomas, mas os idiomas em si aprendidos dependem de onde crescemos. Da mesma forma, todos em nossa espécie são equipados com mecanismos que nos orientam a buscar melhor status social – porém, uma vez que os marcadores de status podem diferir entre culturas e subculturas, crescemos prestando atenção aos marcadores de status locais de nossa cultura, aprendendo a valorizá-los e emulá-los. Algumas evidências sugerem que um processo semelhante pode ocorrer com o nojo e com as preferências alimentares. Só porque os resultados (quais alimentos se come ou qual língua se fala) diferem entre as culturas, isso não significa que os mecanismos psicológicos subjacentes que geraram esses comportamentos também variam. A variabilidade transcultural do comportamento pode ser, e frequentemente é, subjacente à uniformidade transcultural dos mecanismos neurocognitivos que geram esses comportamentos.

Esta é uma distinção fundamental que vale a pena repetir: a maioria das abordagens evolucionistas da psicologia e do comportamento prediz a universalidade no nível da estrutura de processamento de informações dos mecanismos neurocognitivos que produzem o comportamento, não no nível dos próprios resultados comportamentais finais.

Uma maneira de entender isso é por referência à cultura evocada (“evoked culture”). A cultura evocada se refere às diferenças culturais entre grupos que surgem da combinação de um mecanismo psicológico universal com inputs ambientais que diferem entre as culturas. Isso pode ser claramente expresso com a seguinte equação informal: mecanismos psicológicos universais + inputs ambientais que diferem por cultura = outputs (saídas) comportamentais que diferem por cultura.

Diferenças culturais nas estratégias de acasalamento ilustram esse ponto. Estudos transculturais mostram que essas diferenças podem ser previstas com base na razão sexual operacional.(2)N. da T.: A razão sexual refere-se a proporção de machos e fêmeas numa determinada população. Razão sexual operacional refere-se a proporção de machos sexualmente ativos em relação a fêmeas sexualmente receptivas (ou seja, dispostos a se relacionar entre si). Em países com escassez de homens, a cultura tende a se inclinar mais para relacionamentos de curto prazo. Em países com escassez de mulheres, a cultura tende a se inclinar mais para relacionamentos de longo prazo. Essa dinâmica pode ser entendida em termos econômicos: o mercado romântico é uma espécie de mercado biológico em que o sexo mais raro tem o maior poder de barganha. Como os homens, em média, têm um desejo mais forte do que as mulheres por sexo casual, as culturas com menos homens tendem a se organizar na direção dos relacionamentos de curto prazo. E porque as mulheres, em média, têm um desejo mais forte do que os homens por relacionamentos a longo prazo, as culturas com menos mulheres tendem a se organizar na direção de um maior compromisso (observe a condição em média – há muita variação dentro de cada sexo, mas os estudos, no entanto, mostram uma robusta diferença média entre os sexos nesse quesito).

Ou seja, a cultura evocada é um mecanismo psicológico universal, que quando combinado com inputs ambientais diferentes entre culturas, também produz comportamentos diferentes entre essas culturas. O interessante é que a variação cultural do comportamento de acasalamento não entra em conflito com uma explicação evolutiva, e ainda foi prevista teoricamente usando o raciocínio evolucionista antes de qualquer coleta de dados. O fenômeno da cultura evocada também parece explicar parcialmente as diferenças culturais em traços de personalidade, como extroversão, abertura à experiência e sociossexualidade.

A sabedoria convencional nas ciências sociais é que se dado comportamento varia transculturalmente, então o comportamento em questão não tem uma base evolutiva. Isso parece intuitivo, mas está errado porque a psicologia evolucionista de fato prevê a variação transcultural em virtude de mecanismos neurocognitivos universais.

Equívoco 5:

A psicologia evolucionista não presta atenção suficiente nas diferenças individuais

Há alguma verdade nessa ideia, especialmente se você voltar vinte anos no tempo.

A psicologia evolucionista começou com um foco nos mecanismos típicos das espécies e nas diferenças entre os sexos. À primeira vista, as diferenças individuais – especialmente as herdáveis – parecem mais desafiadoras de se tratar, e os pesquisadores demoraram um pouco para começar a abordar o assunto com seriedade. As primeiras tentativas seminais incluíram trabalhos como este, este, este e este.

Mais recentemente, o interesse dos psicólogos evolucionistas nas diferenças individuais cresceu rapidamente, e estamos vendo progresso tanto explicativo quanto preditivo. Alguns artigos teóricos recentes que abordam as diferenças individuais incluem este, este, este, este e este. Alguns artigos empíricos recentes abordando diferenças individuais específicas incluem este sobre extroversão, este sobre ciúme sexual, este sobre nojo e estratégias de acasalamento, este sobre odor corporal, este sobre covariação de traços de personalidade, este sobre contribuições para o bem público, este sobre comportamento moralizante, este sobre o efeito dos parasitas e este sobre uma multiplicidade de variáveis ​​de diferença individuais. Também é comum ver seções dedicadas às diferenças individuais em outros artigos mais amplos, como este sobre diferenças sexuais no ciúme e este sobre emoções, ou artigos que avançam hipóteses sobre diferenças individuais, como este sobre a psicologia da fome. E aqui está um artigo inteiro dedicado aos efeitos de contexto, que são um importante impulsionador das diferenças individuais no comportamento.

Volumes inteiros de psicologia evolucionista são agora dedicados ao tópico, assim como capítulos de manuais dedicados à psicologia da personalidade e diferenças individuais.

Então, sim, é verdade que as abordagens evolucionistas da psicologia começaram analisando mecanismos universais e típicos de cada sexo, mas os últimos vinte anos testemunharam um renascimento do interesse nas diferenças individuais, incluindo maior ênfase na variação dentro dos sexos. Essa tendência não dá sinais de diminuir e tende a crescer em escopo, importância e colheita empírica nos próximos anos.

Equívoco 6:

Psicólogos evolucionistas pensam que tudo é uma adaptação

Essa mentira simplesmente não morre, embora seja sustentável se você estiver lendo críticas mal informadas em vez da literatura primária real no campo.

Em suas publicações, os psicólogos evolucionistas frequentemente afirmam de forma explícita que a evolução produz três tipos de produtos: adaptações, subprodutos e ruído. Além dessa asserção teórica, os pesquisadores também propõem hipóteses sobre subprodutos e realizam estudos sobre eles.

Por exemplo, aqui, aqui e aqui estão três artigos conceituais que rejeitam explicitamente a noção de que todos os aspectos de nossa psicologia são adaptações. Este artigo sobre adaptações, exaptações(3)N. da T.: Diferentemente das adaptações tradicionais, que são características que evoluíram na direção de sua função atual, exaptações representam características cuja função atual é diferente da original. Um tipo de exaptação é a adaptação cooptada. Como escreve Buss et al. (1998, p. 539): “[Nela], os recursos que evoluíram pela seleção natural para uma função são cooptados para outra função. (…) As penas das aves, tendo primeiro evoluído para regulação térmica, mas sendo depois cooptadas para o voo, são um exemplo de adaptação cooptada.” e tímpanos(4)N. da T.: Tímpanos (originalmente “spandrels”) são um tipo de exaptação. Representam “características úteis no presente momento [que] não surgem como adaptações, (…) mas devem sua origem a consequências colaterais de outras características” (Gould, 1991, p. 53). A cor vermelha do sangue de muitos animais, por exemplo, é um tímpano, não uma adaptação, pois outros grupos animais vivem bem com sangue incolor ou de outras cores. O termo faz referência às estruturas “acidentais” observadas no interior de algumas construções como a Basílica de São Marcos em Veneza – são as áreas angulosas que sobram quando os arcos são justapostos. Outro exemplo, escrevem Buss et al. (1998, p. 539), seriam “os espaços entre os pilares de uma ponte”, que podem “posteriormente ser utilizados por moradores de rua para dormir, mesmo que tais espaços não tenham sido projetados para fornecer abrigo”. discute explicitamente esses subprodutos em detalhes. Este artigo aborda cuidadosamente a questão de como realizar um programa exaptacionista em psicologia. Aqui está um excelente estudo sugerindo que o racismo é um subproduto evolutivo, não uma adaptação, e que pode ser apagado. Aqui está um artigo sugerindo que a maior prevalência de fetichismo sexual entre os homens é um subproduto de seus limiares de excitação sexual mais fáceis de cruzar em combinação com seus mecanismos de aprendizagem sexual tendenciosos.

Aqui está um exemplo de dois psicólogos evolucionistas proeminentes alegando que o homicídio é um subproduto, não uma adaptação, e aqui estão os mesmos dois pesquisadores (junto com um terceiro coautor) alegando que o uxoricídio(5)N. da T.: Homicídio de uma mulher por seu parceiro. e o filicídio(6)N. da T: Homicídio contra o próprio filho. também são subprodutos. Aqui, aqui e aqui estão exemplos de pesquisadores explicando a religião e a crença em agentes sobrenaturais como um subproduto de outros mecanismos, como mecanismos de detecção de agência que são tendenciosos para falsos positivos, mecanismos da teoria da mente e o sistema de apego. Meus colegas e eu recentemente submetemos um capítulo intitulado “Os produtos da evolução” a um novo manual de psicologia evolucionista e, sem surpresa, os subprodutos são uma parte central do capítulo.

A disparidade entre essas críticas à psicologia evolucionista e o que os psicólogos evolucionistas realmente dizem em seus trabalhos publicados é notável. A única razão pela qual não é surpreendente é que existem muitos outros exemplos de deturpações da área – você pode encontrar alguns bons exemplos de tais deturpações aqui, aqui, aqui e aqui.

Parte do problema é uma discordância filosófica sobre o que significa o adaptacionismo. Como muitos psicólogos evolucionistas entendem o termo, o adaptacionismo não é um compromisso com a ideia de que todas ou a maioria de nossas características psicológicas se descobrirão adaptações assim que terminarmos de estudá-las. Em vez disso, é uma abordagem heurística e metodológica que envolve testar hipóteses sobre possíveis adaptações – e então rejeitar essas hipóteses se as evidências não estiverem a seu favor. Em outras palavras, o adaptacionismo é um ponto de partida de trabalho e uma estratégia de pesquisa que produz hipóteses testáveis, não um pressuposto ou compromisso religioso de ver todo traço como adaptação. Como método de trabalho e estratégia de pesquisa, deu muitos frutos. Como uma suposição inquestionável, seria realmente terrível – mas os psicólogos evolucionistas profissionais não parecem usá-lo dessa forma. Os observadores podem ser facilmente perdoados por pensar que sim, porque o público tem ouvido repetidamente isso por autores proeminentes como Stephen Jay Gould, que tinha uma tendência documentada de deturpar as opiniões de seus interlocutores.

Equívoco 7:

As hipóteses da psicologia evolucionista são just-so stories

É muito mais fácil manter esse equívoco se você não se envolver com a literatura primária da psicologia evolucionista. Discuti esse mal-entendido aqui, mas gostaria de abordá-lo novamente para um público mais amplo neste ensaio. Para aqueles que não estão familiarizados com o termo, just-so stories(7)N. da. T.: Literalmente “apenas historiazinhas”, ou como prefiro chamar, “ciência de sofá”. se refere ao processo não-científico de inventar uma explicação conveniente (neste caso, uma explicação evolucionista) para um fenômeno qualquer, como o comportamento humano, sem testes posteriores.

Na ciência, existem duas abordagens básicas para se testar uma hipótese. A primeira é o método de-cima-para-baixo: o pesquisador usa uma teoria para gerar uma hipótese, deriva previsões específicas dessa hipótese e as testa. É quase impossível cair numa just-so story usando essa abordagem porque o pesquisador está fazendo previsões a priori com base na teoria. Muitas pesquisas em psicologia evolucionista empregam essa abordagem, começando com a teoria e continuando a partir daí.

A segunda abordagem para o teste de hipóteses é a abordagem de-baixo-para-cima: o pesquisador percebe algo sobre o comportamento humano, apresenta uma hipótese que pode explicar esse comportamento e, em seguida, usa essa hipótese para gerar novas previsões; por fim, ele testa essas previsões. Ambas as abordagens são partes normais e produtivas da ciência, mas esta segunda (de-baixo-para-cima) pode potencialmente se tornar uma just-so story se o pesquisador parar no meio e simplesmente aceitar a explicação que ele inventou sem se preocupar em derivar e testar quaisquer novas previsões a partir dela. Se fizer isso, o pesquisador estará contando uma just-so story. Felizmente, no entanto, poucos pesquisadores em qualquer disciplina científica cometem esse erro flagrante (e, em minha experiência, com um pouco de esforço você pode até fazer com que alunos de graduação em psicologia o evitem).

Se você pesquisar a literatura primária em psicologia evolucionista, notará duas coisas: 1) muito trabalho psicológico evolucionista emprega a abordagem de-cima-para-baixo, tornando esta pesquisa essencialmente imune às just-so stories. E 2) a maior parte da pesquisa evolutiva de-baixo-para-cima não para na metade do processo; em vez disso, os pesquisadores geralmente geram novas previsões a partir das hipóteses que acabaram de inventar e passam a testar essas novas previsões em novos estudos empíricos. Isso significa que a maior parte do trabalho de-baixo-para-cima em psicologia evolucionista também parece não se enquadrar nessa narrativa.

Então, por que tantas pessoas persistem na noção de que as hipóteses da psicologia evolucionista são just-so stories? Aí vão algumas possíveis explicações: 1) a psicologia evolucionista envolve um elemento histórico e 2) não podemos olhar diretamente para o passado, então suas hipóteses não podem ser testadas, sendo meras histórias para boi dormir. Esse tipo de pensamento é tentador, mas está errado por não compreender a natureza do teste de hipóteses.

Em primeiro lugar, considere que o teste de hipótese é, em última análise, impossível em qualquer campo que contenha um elemento histórico. Isso tornaria todos os seguintes campos infalsificáveis ​​e repletos de absurdos: cosmologia, astrofísica, paleontologia, arqueologia, geologia e biologia evolutiva. Isso está obviamente errado e deveria servir como um sinal de alerta para aqueles que pensam que a historicidade da psicologia evolucionista automaticamente torna suas hipóteses infalsificáveis.

Em segundo lugar, isso confunde a natureza do teste de hipótese. Psicólogos evolucionistas não precisam viajar ao passado para testar suas hipóteses. Em vez disso, suas hipóteses podem ser informadas por seu conhecimento (reconhecidamente incompleto) do passado. Mas essas hipóteses geram previsões empíricas sobre o que devemos esperar ver no presente. Em outras palavras, uma hipótese psicológica evolucionista produz previsões sobre o que devemos encontrar quando estudamos humanos modernos sob a condição X.

Por exemplo, se quisermos testar a hipótese de que a repulsa evoluiu para nos proteger de doenças, não precisamos viajar no tempo, nem precisamos ter um conhecimento perfeito e completo do passado. Isso requer apenas que testemos o comportamento de humanos modernos para ver se, por exemplo, as pessoas mostram uma repulsa mais forte em resposta a itens mais patogênicos em comparação com os menos patogênicos (elas mostram), se aqueles com maior repulsa e maior sensibilidade à contaminação são menos propensos a adoecer hoje (eles são), se os humanos podem detectar a doença nos outros através do odor corporal (eles podem), se o nojo é suprimido ao cuidar de um parente (ele é), se o nojo está relacionado com o comportamento de acasalamento de uma maneira esperada (ele está), se ele ativa uma resposta imunológica (parece que sim), se ele é regulado positivamente durante os períodos de imunossupressão (parece que sim) e se a exposição a patógenos faz as pessoas se envolverem no tipo de comportamento que reduz a probabilidade de infecção (ela faz). Sim, a hipótese de que a repulsa evoluiu para nos proteger das doenças contém um elemento histórico implícito. Mas testar essa hipótese não exige que o pesquisador viaje no tempo ou perscrute a história. Testá-la exige que o pesquisador extraia novas previsões da hipótese e teste essas previsões nos dias modernos.

Este, acredito, é o ponto crucial da questão. É tentador pensar que a historicidade parcial das hipóteses evolucionistas as torna infalsificáveis, mas isso confunde a noção de falseabilidade e a natureza do teste de hipóteses. Contanto que as hipóteses evolutivas produzam previsões sobre os humanos que podem ser testadas no ambiente moderno – e produzem -, elas são eminentemente falseáveis.

Conclusão

O objetivo deste ensaio não é sugerir que as abordagens evolucionistas da psicologia são perfeitas. Não são, e certamente há espaço para melhorias. No entanto, os equívocos generalizados discutidos neste ensaio impediram a aceitação do campo entre os acadêmicos e o público em geral. E dado que essas preocupações são amplamente infundadas, a rejeição de muitas pessoas à psicologia evolucionista tem pouco a ver com seus méritos e limitações reais.

Talvez mais importante, esses equívocos impedem o progresso da psicologia como um todo, porque a ciência da mente e do comportamento não pode atingir seu potencial completo se ignorar a evolução. Simplesmente não há como escapar do fato de que nossos cérebros são um produto da evolução e que isso tem consequências importantes para o funcionamento de nossas mentes.

Os cientistas concordam de forma esmagadora que a teoria da evolução é o paradigma integrador das ciências biológicas: ela une muitas disciplinas diferentes, explica uma enorme variedade de descobertas já conhecidas e prevê uma série estonteante de outras novas. A psicologia também é uma ciência biológica.(8)N. da T.: Aqui o autor usa o termo life science, ou literalmente “ciências da vida”, o que costuma englobar a biologia (macro e micro), a botânica, a zoologia, a bioquímica, etc. Como somos por definição seres biológicos, seja fora ou dentro do crânio, é razoável desejar que a psicologia evite se distanciar dos conhecimentos e avanços das outras “ciências da vida”, embora seja esse o caminho tomado por ela, por exemplo, na América Latina. “Fiquei chateado ao descobrir que na América Latina a psicologia não era muito científica. Era muito teorética, muito mais ligada ao marxismo e questões de opressão, colonialismo e poder”, comenta Jonathan Haidt sobre sua viagem a Buenos Aires em 1989 (Haidt, 2013). Não pode evitar de cair sob esse guarda-chuva.

As abordagens evolucionistas da psicologia continuam a fazer avanços teóricos a cada ano e a produzir novas descobertas empíricas a cada mês. Em vez de se inclinar contra moinhos de vento, vale a pena fazer um esforço de boa fé para se envolver com o que os pesquisadores da área estão realmente dizendo e fazendo. Os leitores que fizerem isso podem se surpreender ao ver que o que encontram muitas vezes é muito diferente dos espantalhos com tanta frequência encontrados na literatura secundária. Eles também podem realizar uma colheita teórica e empírica maravilhosa e começar a compreender a psicologia humana sob uma nova luz.

Original em Areo, 20 de agosto de 2019.

Tradução: Ágata Cahill

Revisão: Felipe C. Novaes

Algumas adaptações foram feitas para fins de clareza.

Laith Al-Shawaf
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Laith Al-Shawaf, Ph.D., é pesquisador e professor assistente de psicologia na Universidade do Colorado. Conduziu pesquisas internacionalmente, estas (com colaboradores) por sua vez apresentada em veículos como a BBC, o Washington Post, The Atlantic, Psychology Today, Slate, o Fórum Econômico Mundial e a Time. Em 2019, a Association for Psychological Science (APS) nomeou-o uma estrela em ascensão.

Editora sênior do Xibolete e autora at | + posts

Notas

1 N. da T.: Explicando: a herdabilidade é um método de inferir a base genética de características que só cumpre esse papel se houver variação dessa característica, tanto no fenótipo quanto no genótipo responsável por ela. Havendo variação, como é o caso da orientação sexual, é possível tentar estudar quanto dessa variação decorre de influências hormonais, socioambientais ou genéticas (mais aqui). Tome de exemplo, por outro lado, que a herdabilidade de ter um coração é zero, já que todos os humanos vivos apresentam um coração independente de sua ancestralidade (não há variação significativa do fenótipo). A herdabilidade portanto também não é um bom método para descobrir a base genética de algumas características que são adaptativas, dado que elas não apresentam variação. Para entender mais sobre herdabilidade, leia este texto.
2 N. da T.: A razão sexual refere-se a proporção de machos e fêmeas numa determinada população. Razão sexual operacional refere-se a proporção de machos sexualmente ativos em relação a fêmeas sexualmente receptivas (ou seja, dispostos a se relacionar entre si).
3 N. da T.: Diferentemente das adaptações tradicionais, que são características que evoluíram na direção de sua função atual, exaptações representam características cuja função atual é diferente da original. Um tipo de exaptação é a adaptação cooptada. Como escreve Buss et al. (1998, p. 539): “[Nela], os recursos que evoluíram pela seleção natural para uma função são cooptados para outra função. (…) As penas das aves, tendo primeiro evoluído para regulação térmica, mas sendo depois cooptadas para o voo, são um exemplo de adaptação cooptada.”
4 N. da T.: Tímpanos (originalmente “spandrels”) são um tipo de exaptação. Representam “características úteis no presente momento [que] não surgem como adaptações, (…) mas devem sua origem a consequências colaterais de outras características” (Gould, 1991, p. 53). A cor vermelha do sangue de muitos animais, por exemplo, é um tímpano, não uma adaptação, pois outros grupos animais vivem bem com sangue incolor ou de outras cores. O termo faz referência às estruturas “acidentais” observadas no interior de algumas construções como a Basílica de São Marcos em Veneza – são as áreas angulosas que sobram quando os arcos são justapostos. Outro exemplo, escrevem Buss et al. (1998, p. 539), seriam “os espaços entre os pilares de uma ponte”, que podem “posteriormente ser utilizados por moradores de rua para dormir, mesmo que tais espaços não tenham sido projetados para fornecer abrigo”.
5 N. da T.: Homicídio de uma mulher por seu parceiro.
6 N. da T: Homicídio contra o próprio filho.
7 N. da. T.: Literalmente “apenas historiazinhas”, ou como prefiro chamar, “ciência de sofá”.
8 N. da T.: Aqui o autor usa o termo life science, ou literalmente “ciências da vida”, o que costuma englobar a biologia (macro e micro), a botânica, a zoologia, a bioquímica, etc. Como somos por definição seres biológicos, seja fora ou dentro do crânio, é razoável desejar que a psicologia evite se distanciar dos conhecimentos e avanços das outras “ciências da vida”, embora seja esse o caminho tomado por ela, por exemplo, na América Latina. “Fiquei chateado ao descobrir que na América Latina a psicologia não era muito científica. Era muito teorética, muito mais ligada ao marxismo e questões de opressão, colonialismo e poder”, comenta Jonathan Haidt sobre sua viagem a Buenos Aires em 1989 (Haidt, 2013).