Ciência, Sexos

‘Neurossexismo’ outra vez: a negação da neurociência das diferenças sexuais de Gina Rippon​

Resenha de “O gênero no cérebro: A nova neurociência que destrói o mito do cérebro feminino”, escrito por Gina Rippon (The Bodley Head Ltd, 2019).

Imagine sua reação ao pegar um exemplar da Nature, uma das principais revistas científicas, e ler o título: “O mito de que a evolução se aplica aos humanos”. Alguém vagamente familiarizado com os avanços da neurociência ao longo dos últimos 15-20 anos a respeito das influências da diferenciação sexual no funcionamento cerebral deve ter uma reação similar em relação a uma recente manchete da Nature: “Neurossexismo: O mito de que homens e mulheres têm cérebros diferentes”, com o subtítulo “a busca por distinções masculinas e femininas no interior do crânio é uma aula de má prática de pesquisa”.

Acontece de ser mais outro livro, com resenhas bajuladoras da Nature, afirmando “quebrar” mitos sobre diferenças cerebrais entre os sexos enquanto, na verdade, perpetua um mito ainda maior. Editores da Nature decidiram dar seu imprimatur a esse livro. Ironicamente, alguns dias após a publicação da resenha da Nature, veio um alerta da American Association for the Advancement of Science intitulado “Pesquisadores descobrem pistas sobre diferenças cerebrais entre homens e mulheres”, e um novo editorial na Lancet Neurology intitulado “Um holofote sobre as diferenças sexuais em distúrbios neurológicos”, ambos contradizendo a tese central do livro. Então, em nome da boa ciência, o que está acontecendo?


Por décadas, as neurociências, como outras áreas de pesquisa, estudaram exaustivamente apenas homens, assumindo que tudo de fundamental para se saber sobre mulheres seria aprendido estudando homens. Eu sei – eu mesmo fiz isso no início da minha carreira. A maioria dos neurocientistas assumia que diferenças entre homens e mulheres, se existissem, não seriam fundamentais; isto é, não seriam essenciais para se entender a estrutura ou funcionamento do cérebro. Ao contrário, nós assumimos que diferenças sexuais resultam da variação hormonal (normalmente vista como uma espécie de característica feminina incômoda) e/ou de diferentes experiências de vida (“cultura”). Nos dois casos, elas seriam descartáveis para nossa busca pelo mais fundamental sobre o cérebro. Na verdade, essa sempre foi uma suposição estranha, mas era assim que as coisas aconteciam.

Contudo, gradual e inexoravelmente, nós, neurocientistas, estamos percebendo o quão profundamente errada – e, de fato, desproporcionalmente prejudicial às mulheres – era tal suposição, especialmente no contexto de compreensão e tratamento de distúrbios cerebrais. Qualquer leitor que deseje confirmar o que estou escrevendo pode facilmente começar lendo a edição de janeiro-fevereiro de 2017 do Journal of Neuroscience Research, a primeira revista de neurociência dedicada ao tópico das diferenças sexuais em sua totalidade. Todos os 70 artigos, abrangendo o espectro da neurociência, são de acesso aberto ao público.

Em termos estatísticos, o chamado tamanho de efeito mede o tamanho da influência de uma variável sobre outra. Embora alguns acreditem que as diferenças cerebrais entre os sexos sejam pequenas, na verdade, o tamanho de efeito médio encontrado nessas pesquisas não é diferente do tamanho de efeito médio encontrado em qualquer outro grande domínio da neurociência. Assim, aqui vai um fato: agora está bastante claro para qualquer um com olhar honesto que o sexo biológico como variável influencia todos os níveis da função cerebral dos mamíferos até o substrato celular/genético, o que obviamente também inclui o cérebro de mamíferos humanos.

O cérebro mamífero é claramente um órgão altamente influenciado pelo sexo. Sua função e disfunção devem, portanto, ser influenciadas pelo sexo em um grau importante. Como exatamente toda essa miríade de influências sexuais atua muitas vezes é difícil, ou mesmo impossível, de identificar no momento (como é para quase todas as questões da neurociência). Mas que devem atuar de muitas maneiras, mais e menos importantes, tendo todos os tipos de implicações para mulheres e homens que precisamos entender com responsabilidade, está agora além do debate – pelo menos entre os não-ideólogos.

Reconhecendo nossa obrigação de estudar cuidadosamente as influências sexuais em essencialmente todos os domínios (não apenas na neurociência), o National Institute of Health, em 25 de janeiro de 2016, adotou uma política (chamada de “Sexo como uma Variável Biológica” ou SABV, na sigla em inglês) exigindo que todos os seus beneficiários adotassem seriamente a investigação do cérebro feminino em suas pesquisas.

“Sexo pode influenciar saúde e doença de muitas formas, por isso o NIH requer que pesquisadores considerem sexo como uma variável biológica (SABV) em todos os estágios de pesquisa: http://bit.ly/2KXGL7k.”

Mas o crescimento notável e sem precedentes de pesquisas que demonstram influências sexuais de base biológica sobre o funcionamento cerebral acionou um alarme de incêndio no cérebro daqueles que acreditam que tais influências biológicas não podem existir.

Desde que Simone de Beauvoir, no início dos anos 1950, proferiu sua famosa afirmação de que “Não se nasce mulher, torna-se”, e que John Money, da Johns Hopkins, logo em seguida introduziu o termo “gênero” (emprestado dos linguistas) para evitar as implicações biológicas da palavra “sexo”, a crença de que não existem diferenças significativas nos cérebros de mulheres e homens dominou a cultura dos EUA. E que Deus o ajude se você sugerir o contrário! Gloria Steinem certa vez chamou a pesquisa de diferenças sexuais de “pensamento anti-americano maluco”. Colegas experientes me avisaram, por volta do ano 2000, que como professor não titular seria suicídio profissional estudar diferenças sexuais. Esse novo livro de Rippon marca a última salva de um grupo muito pequeno, mas vocal, de indivíduos anti-diferenças sexuais, determinados a perpetuar esse mito cultural.

Um livro como esse é muito difícil para alguém com conhecimento na área revisar com seriedade. É tão repleto de preconceitos que ficamos nos perguntando por que alguém se importaria. Mas o livro está cheio de táticas que agora são procedimentos operacionais padrão para autores anti-diferenças sexuais. A estratégia mais importante é uma visão comicamente tendenciosa e totalmente não representativa da enorme literatura de estudos que vão desde aqueles com seres humanos até com neurônios individuais.

Outra tática inclui superestimar ou inventar problemas em estudos desfavoráveis, e ignorar problemas com estudos favoráveis; descartar revelações poderosas de pesquisas sobre o cérebro de outros mamíferos; esconder fatos desconfortáveis em notas de rodapé; fingir não negar as bases biológicas das diferenças cerebrais entre os sexos enquanto faz tudo para negá-las; fingir ser favorável à compreensão das diferenças sexuais em contextos médicos sem nunca oferecer um único exemplo explicando sua importância para a medicina; tratar a “plasticidade cerebral” como um talismã mágico sem limitações capaz de explicar tais diferenças; apresentar uma visão distorcida sobre o que a literatura sobre “estereótipos” realmente sugere; e ressuscitar argumentos do século XIX que quase nenhum neurocientista moderno conhece ou se importa. Finalmente, use um nome cativante para caluniar aqueles que se atrevem a ser bons cientistas investigando as potenciais influências sexuais em suas pesquisas, apesar dos profundos vieses contra o tópico (“neurossexistas!“). Essas táticas funcionam muito bem com aqueles que sabem pouco ou nada sobre neurociência. 

Aqui estão alguns pontos fracos do livro:

Rippon elogia um estudo realmente horrível que recebeu uma atenção extraordinária da imprensa (algo que ela afirma não gostar em estudos de diferenças de sexo). Em uma análise da estrutura cerebral de homens e mulheres utilizando neuroimagem, conduzida por Daphna Joel e publicada em 2015 na Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), um grande número de diferenças foi encontrado em termos de média entre os sexos. Mas a equipe de Joel afirmou que, utilizando uma nova análise, mulheres e homens individualmente apresentaram uma coleção bastante aleatória dos traços tipicamente masculinos e tipicamente femininos. Eles argumentaram corretamente que todos nós possuímos um “mosaico” de traços femininos e masculinos (o que a neurociência já conhece desde os anos 1970), mas que, crucialmente, os dois sexos seriam na verdade unissex – isto é, amplamente indistinguíveis, em média, na natureza desses mosaicos masculinos/femininos.

Essa conclusão me deixou confuso, uma vez que não há nada em nossa compreensão das influências sexuais no cérebro que sugira isso. Mas dei a eles o benefício da dúvida e sentei-me para ler o estudo com atenção. Comecei a rir na seção de metodologia. Os autores construíram sua principal medida (chamada de “consistência interna”) tornando essencialmente impossível não encontrar os resultados que obtiveram. Ou, de outro modo, o estudo foi basicamente manipulado (embora não necessariamente de forma consciente), como subsequentemente foi demonstrado por três outros grupos que também publicaram na PNAS. Marco Del Giudice e seus colegas da Universidade do Novo México, por exemplo, reanalisaram os mesmos dados usados ​​pela equipe de Joel, usando um método não manipulado e obtiveram os resultados opostos – mulheres e homens individualmente podiam ser discriminados por 69-77% das vezes pelas mesmas variáveis ​​cerebrais. Níveis ainda mais altos de discriminabilidade entre os sexos foram relatados por outras equipes em relação à estrutura e funcionamento cerebral e à personalidade.

Rippon também deturpa totalmente um estudo de referência sobre conectividade do cérebro humano, feito por Madhura Ingalhalikar, Raquel e Ruben Gur e colegas, conduzido na Universidade da Pensilvânia e publicado no PNAS em 2014. Esse estudo impressionante relatou diferenças entre os sexos na conectividade cerebral utilizando métodos padronizados bastante defensáveis ​​e, de fato, uma descoberta importante (com relação ao corpo caloso) confirmou trabalhos anteriores. Aqui seria perfeitamente adequado uma ilustração de uma crítica feita por Rippon (que de fato não seria realizada em qualquer outro contexto). A equipe ofereceu uma especulação plausível sobre o que suas descobertas anatômicas poderiam significar comportamentalmente, então como excelentes cientistas eles publicaram outro grande estudo de follow-up relacionando diretamente as diferenças anatômicas entre sexos e o comportamento, um estudo não mencionado por Rippon. Em vez disso, Rippon fala sobre comentários ridículos que as pessoas fizeram em blogs sobre o primeiro estudo. Finalmente, Rippon descreve um estudo de um grupo em Zurique que teria desmentido ostensivamente o relatório original de Ingahalikar et al, mas esse estudo não fez tal coisa. Na verdade, o grupo de Zurique confirmou as diferenças chave entre sexos encontrada por Ingahalikar et al (embora com um tamanho amostral menor), sugerindo depois uma razão plausível para a existência dessas diferenças na conectividade do cérebro, ou seja, a diferença no tamanho geral do cérebro entre os sexos.

O livro é totalmente risível quando se trata da pesquisa moderna com animais, simplesmente ignorando a sua grande maioria. O enorme poder da pesquisa animal, é claro, é que ela pode estabelecer as influências sexuais, em particular no funcionamento cerebral dos mamíferos (como diferenças sexuais na exposição a riscos, comportamento lúdico e resposta à derrota social, para citar apenas três exemplos) que não podem ser explicadas pela cultura humana (embora nos humanos possam ser influenciadas pela cultura). Rippon se envolve numa efetiva negação da evolução, sugerindo ao seu leitor que devemos ignorar as implicações profundas da pesquisa com animais (“Aqueles malditos macacos, de novo, não!”) ao tentar entender as influências sexuais no cérebro humano. Ela está certa apenas se você acreditar que a evolução em humanos só ocorreu do pescoço para baixo.

Rippon tenta convencer o leitor (e talvez ela mesma acredite nisso) de que é impossível separar biologia e cultura ao investigar as diferenças sexuais em humanos. Isso é falso. Recomendo ao leitor interessado ver no artigo que escrevi em 2014 para o “Cerebrum” da Fundação Dana, com acesso online e gratuito, a discussão sobre o excelente trabalho de um sociólogo chamado J. Richard Udry que fez exatamente isso.

“Para começar a tratar as mulheres como iguais aos homens, temos que parar de tratá-las como se elas fossem homens.”

Rippon não menciona o trabalho de Udry, nem a replicação essencial feita pela crítica mais severa de Udry, uma proeminente socióloga que se descreve como uma “feminista” que agora “luta” com a testosterona. (O artigo feito para a Dana, “Equal ≠ Same(1)Já traduzido aqui no Xibolete., também desconstrói o capcioso argumento da “plasticidade cerebral” no qual a narrativa de Rippon se baseia fortemente).

Claro, Rippon está completamente correta ao argumentar que neurocientistas (e o público geral) devem lembrar que “biologia” e “cultura” interagem, e que especulações sobre os achados a respeito de diferenças sexuais no funcionamento cerebral e comportamento não devem correr soltas. Também temos que rejeitar a conclusão ilógica de que influências sexuais sobre o cérebro irão significar que as mulheres são superiores, ou que os homens são superiores. Eu sinceramente não conheço neurocientista algum que discordaria desses argumentos. Mas ela evita cuidadosamente uma verdade igualmente importante: neurocientistas não devem negar que existem diferenças sexuais de base biológica com prováveis e importantes implicações para a compreensão do funcionamento do cérebro e do comportamento, e nem devem temer investigá-las.

Você pode estar se perguntando: o que pessoas como Rippon tanto temem? Ela cita o potencial uso indevido das descobertas para fins sexistas, o que tem uma plausibilidade superficial. Por essa lógica também deveríamos parar de estudar genética, por exemplo. O potencial mau uso de novos conhecimentos existe desde que descobrimos o fogo e inventamos a roda. Isso não é um argumento válido para permanecer ignorante. 

Depois de quase 20 anos ouvindo os mesmos argumentos inválidos (como Bill Murray em “O Feitiço do Tempo” acordando com a mesma música todos os dias), me parece claro que o problema real é uma suposição profundamente enraizada, implícita, muito poderosa mas 100% falsa, de que para mulheres e homens terem direitos iguais, eles terão que ser idênticos. Assim, se a neurociência mostrar que, em média, mulheres e homens não são [psicologicamente] idênticos, então isso mostraria que eles não podem ter direitos iguais também. Embora essa suposição seja falsa, ela ainda cria o medo das diferenças entre os sexos naqueles que as estudam. Ironicamente, forçar a igualdade entre grupos diferentes leva à desigualdade forçada entre esses grupos, exatamente como vemos na medicina hoje.

Mulheres e homens não são tratados de forma equânime na biomedicina porque elas são tratadas exageradamente como idênticas aos homens (embora isso esteja finalmente mudando). Ainda assim, surpreendentemente, mesmo não argumentando ser uma negacionista das diferenças sexuais, Rippon diz que “talvez precisemos simplesmente parar de procurar por essas diferenças de uma vez?”. Declarações espantosas como essa vindas de uma especialista me fazem realmente questionar se os Rippons do mundo sequer percebem que, ao negar, trivializar e até difamar pesquisas sobre influências sexuais de base biológica no cérebro, eles estão defendendo a retenção do status quo dominado desproporcionalmente pelo modelo masculino na pesquisa biomédica, o que é extremamente prejudicial às mulheres.

Então os cérebros masculinos e femininos são iguais ou diferentes? Agora sabemos que a resposta correta é “sim”: eles são, em média, iguais ou similares em muitos aspectos, sendo também diferentes, em média, em muitos outros sentidos. A neurociência por trás dessa conclusão é incrivelmente robusta, e ela não apenas não desaparecerá, como também está fadada a crescer. E sim, claro, devemos explorar as diferenças sexuais de forma responsável, como em toda ciência. Lamentavelmente, os negacionistas das diferenças sexuais sem dúvida continuarão seus ataques ideológicos ao campo e aos seus pesquisadores. 

No momento, só se pode implorar que os indivíduos pensantes sejam cautelosos com os ideólogos de ambos os lados da questão das diferenças sexuais. Esses lados são formados por aqueles que acreditam que mulheres são de Vênus e homens são de Marte (e que talvez isso seja da vontade de Deus), e por aqueles que querem convencer você da ideia comprovadamente falsa de que os cérebros de mulheres e homens são iguais (“unissex”), que todas as diferenças entre mulheres e homens na verdade emergem devido a uma cultura arbitrária, e que discordar disso o faz uma pessoa essencialmente má.

Ninguém parece ter problemas em aceitar que, em média, os corpos de homens e mulheres diferem em muitos, muitos aspectos. Por que é surpreendente ou inaceitável que isso seja verdade para o cérebro?  Marie Curie disse que “Nada na vida deve ser temido, apenas compreendido. Agora é hora de compreender mais, para que possamos temer menos”. Seu sábio conselho se aplica perfeitamente às discussões sobre a neurociência das diferenças entre os sexos em 2019. [E adiante!]

Original em Quillette, 29 de março de 2019.

Tradução: Felipe C. Novaes

Revisão: Ágata Cahill

Leves adaptações foram feitas para fins de clareza.

Larry Cahill
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Larry Cahill, PhD, é professor de neurociências e comportamento na Universidade da Califórnia em Irvine, EUA. Além de estudar diferenças neurobiológicas entre os sexos, estuda também os mecanismos neurais da memória influenciada pelas emoções.

Felipe C. Novaes (trad.)

Felipe Carvalho Novaes é formado em Psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2014) e mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. É membro do Laboratório de Pesquisa em Psicologia Social (PUC-Rio) e possui interesse em Psicologia Social sob a ótica da Psicologia Evolucionista, especialmente no estudo da interação entre Biologia e Cultura.

Notas

1 Já traduzido aqui no Xibolete.