Filosofia, Política

Progressista ou conservador? Julgue ideias pelo conteúdo, não pelo rótulo

As palavras progressista e conservador têm pelo menos três significados distintos: suas definições genéricas, as ideologias políticas às quais as palavras correspondem e os estilos de vida que elas implicam. Todos eles são logicamente independentes um do outro.

Politicamente, progressismo e conservadorismo referem-se a ideologias contrastantes. Nesse contexto, as diferenças entre elas estão enraizadas em questões sobre o papel do Estado. Nos Estados Unidos, muitos progressistas defendem que o governo deve fornecer seguridade social aos seus cidadãos, enquanto os conservadores defendem que as instituições de caridade privadas desempenhem essa função de forma mais eficaz. Por outro lado, os conservadores tendem a favorecer a presença de militares americanos no exterior, enquanto os progressistas têm uma visão menos intervencionista. Um progressista americano(1)N. da T.: Este ensaio de Logan Chipkin foi pensado, claro, para o público americano. Os paralelos com a realidade brasileira, entretanto, devem se fazer evidentes aos nossos leitores. pode querer que o governo encerre sua Guerra às Drogas, mas implemente um Green New Deal,(2)N. da T.: O New Deal foi o programa de recuperação de países afetados pela guerra do governo Franklin Roosevelt. Em referência a esse programa, uma ala do Partido Democrata criou um programa ambiental que batizaram de Green New Deal, ou seja, a versão verde do New Deal. No entanto, a popularidade bipartidária da versão verde é bem menor. enquanto um conservador pode buscar pelo oposto. Os progressistas costumam ser a favor de leis de salário mínimo e controles de aluguel, enquanto muitos conservadores são a favor de tarifas no comércio internacional.

Parte dessa confusão depende do fato de que os significados genéricos de progressista e conservador nada têm a ver com as ideologias políticas às quais os rótulos correspondem. Quando as pessoas aprendem política pela primeira vez, muitas vezes presumem que os progressistas são os mocinhos. Afinal, quem poderia ser contra o progresso? Da mesma forma, quem gostaria de ser conservador, alguém preso ao passado?

Mas as ideias políticas progressistas realmente impulsionam o progresso? Os conservadores nos mantêm presos ao passado? Não necessariamente. Os rótulos progressismo e conservadorismo são arbitrários, meros invólucros verbais. É o seu conteúdo que importa.

Se o significado genérico desses rótulos realmente coincidisse com suas respectivas ideologias políticas, todos deveríamos nos tornar progressistas. Então, supondo que pudéssemos assumir as rédeas do governo, nossa sociedade, por definição, progrediria. Mas a verdade é que a forma como rotulamos nossas ideias não importa. Elas nos ajudam a resolver problemas ou não.

Vejamos a questão da regulamentação governamental da economia. Com a interessante exceção das Big Tech, os conservadores tendem a defender pouca ou nenhuma supervisão governamental da economia de mercado, enquanto os progressistas normalmente querem que o governo regule, entre outras, as indústrias alimentícia e farmacêutica. Na prática, as regulamentações governamentais sobrecarregam as empresas com regras que elas devem obedecer ou enfrentar penalidades. Isso cria custos adicionais e aumenta a barreira de entrada para empreendedores. Abrir e manter um negócio já é difícil, e as restrições governamentais tornam-no ainda mais difícil. As grandes empresas quase sempre serão capazes de arcar com os custos das novas regulamentações governamentais, mas as pequenas empresas não (é por isso que as grandes são precisamente as principais empresas que frequentemente clamam pela supervisão do governo).

O aumento da barreira à entrada significa que menos empresas novas — e portanto, menos ideias novas — serão criadas. Assim, a regulamentação do governo impede a inovação do mercado e preserva o status quo — exatamente o oposto do progresso em seu sentido genérico. Enquanto isso, a posição politicamente conservadora de desregulamentação do mercado promove competição e inovação, como quando o Uber transformou a indústria do transporte ou quando os smartphones entraram na indústria da comunicação. A ruptura criativa do mercado livre, muitas vezes defendida pelos conservadores, é a antítese da preservação do status quo.

Algumas posições de progressistas e conservadores correspondem aos significados genéricos desses rótulos, mas isso é meramente acidental. Por exemplo, os progressistas assumiram uma posição literalmente progressista sobre o casamento gay antes que ele se tornasse legal. Da mesma forma, quando os conservadores americanos argumentam que seu direito de portar armas é protegido pela Constituição, eles estão fazendo um argumento literalmente conservador — que seus direitos estão consagrados em um documento nacional e santificado.

Os conservadores às vezes afirmam desejar conservar o liberalismo em seu sentido clássico. Mas na medida em que as liberdades inerentes a um governo liberal clássico são corroídas, eles não desejarão realmente conservá-las, mas revivê-las. E se uma nação nunca tivesse desfrutado das liberdades que os conservadores exigem que seus governos respeitem, eles estariam pedindo pela criação de tais liberdades. Em suma, os conservadores muitas vezes cometem um erro de marketing ao confundir o significado genérico de seu rótulo com seu conteúdo político.

Além disso, também se pode viver como um progressista estereotipado e aceitar uma ideologia política conservadora e vice-versa. É perfeitamente plausível ser um hippie tatuado e fumante de maconha enquanto se defende princípios conservadores e de Estado mínimo. Maj Toure, fundador do Black Guns Matter, de forma alguma parece o estereótipo de um conservador, e ainda assim viaja pelo país ensinando as pessoas sobre seus direitos da Segunda Emenda. Por outro lado, pode-se viver um estilo de vida tradicional e, ao mesmo tempo, clamar por políticas progressistas ou mesmo socialistas. O movimento trabalhista cristão, um esforço explicitamente socialista, publicou a primeira revista socialista cristã na América no final do século XIX.

Eu sou progressista porque eu defendo o progresso é uma declaração vazia – quase todo mundo pensa que defende o progresso. A verdadeira questão é: as ideias e ações que você defende resolvem os problemas ou os agravam? Da mesma forma, sou um conservador porque desejo conservar as ideias dos documentos fundadores dos Estados Unidos só faz sentido se você já concordar com essas ideias e se estiver realmente conservando-as, em vez de revivendo-as. A implementação de agendas políticas progressistas e conservadoras não necessariamente causam progresso ou conservação, respectivamente. Para determinar o efeito de qualquer ação política, deve-se entender economia e também como a intervenção do governo afeta as pessoas e seus esforços para resolver problemas.

O rótulo de uma ideologia, teoria ou sistema de crenças é irrelevante para seu conteúdo real. Na melhor das hipóteses, um rótulo é um indicador abreviado desse conteúdo. Na pior das hipóteses, é um cavalo de Troia, contendo uma horda de vírus mentais que se espalham confundindo o significado genérico do rótulo e a ideologia real por trás dele. Isso se aplica a qualquer ideia, política governamental ou teoria. Considere o Ato Patriota dos Estados Unidos de 2001. Alguém que se opõe a essa legislação é antipatriota? Um crítico do Black Lives Matter necessariamente desvaloriza a vida dos negros americanos?

É preciso superar a confusão comum entre o significado genérico de rótulos e o conteúdo acionável por trás deles. Uma estratégia é ignorar os rótulos por completo. Não presuma que as ideias progressistas implicam necessariamente em progresso, nem que as ideias conservadoras conservam alguma coisa. Examine o conteúdo das ideias e decida por si mesmo se elas sobrevivem à crítica racional. Os rótulos não são nada; o conteúdo é rei.

Original em Areo, 10 de novembro de 2020.

Tradução: Ágata Cahill

Revisão: Eli Vieira

Leves adaptações foram feitas para fins de clareza.

Logan Chipkin
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Logan Chipkin é um escritor freelancer e ghostwriter da Filadélfia. Sua escrita se concentra em ciência, filosofia, economia e história.

Editora sênior do Xibolete e autora at | + posts

Notas

Notas
1 N. da T.: Este ensaio de Logan Chipkin foi pensado, claro, para o público americano. Os paralelos com a realidade brasileira, entretanto, devem se fazer evidentes aos nossos leitores.
2 N. da T.: O New Deal foi o programa de recuperação de países afetados pela guerra do governo Franklin Roosevelt. Em referência a esse programa, uma ala do Partido Democrata criou um programa ambiental que batizaram de Green New Deal, ou seja, a versão verde do New Deal. No entanto, a popularidade bipartidária da versão verde é bem menor.