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Por dizer que colegas têm que ser julgados por mérito, médico é demitido e tem artigo removido de revista acadêmica

Um cardiologista americano de origem asiática virou alvo de uma turba do Twitter por ter escrito um artigo que critica o uso da ação afirmativa em seleções de estudantes de medicina. Naturalmente, sua universidade participou do linchamento.

Tudo começou em 2 de agosto, quando alguns ativistas do Twitter fizeram um alerta sobre um artigo publicado no Journal of the American Heart Association (JAHA: Revista da Associação Americana do Coração, trad. livre). O artigo, escrito pelo cardiologista Norman Wang, foi publicado em 24 de março, mas passara desapercebido pelos ativistas até então. Um dos instigadores do linchamento, que se descreve no Twitter como “Diretora de Diversidade e Inclusão”, escreveu “Levantem-se, colegas! O fato de que isso foi publicado no ‘nosso’ periódico deve nos enfurecer e nos levar todos à ação”.

Vários outros tweets condenatórios apareceram nas horas e dias subsequentes. Um tweet revelou que Wang tinha antes “tentado fazer mainsplaining” sobre diferenças de salários entre gêneros ao indivíduo em questão, dessa forma manchando ainda mais a imagem do médico constrangido. Logo depois, um ex-presidente da Associação Americana do Coração (AHA) se envolveu. Em resposta a muitos pedidos frenéticos a respeito do artigo de Wang ter sido publicado na JAHA, ele insistiu que todas as revistas da AHA são “editadas independentemente da organização”, e prometeu que haveria uma avaliação do caso.

No dia seguinte, o editor-chefe da JAHA publicou uma nota editorial sobre o artigo de Wang, que alegava que “seu propósito central era argumentar contra a ação afirmativa”. O editor proclamou que as opiniões expressadas por Wang “não refletem de forma alguma” as suas próprias ou as do conselho editorial, e assegurou aos leitores que ele e outros editores “condenam a discriminação e o racismo de todas as formas”. Acrescentou que “Muito mais precisa ser feito para aumentar a diversidade, a equidade e a inclusão na medicina e na cardiologia”.

No dia após esse, a própria AHA disse num tweet que o artigo de Wang “NÃO representa os valores da AHA”. Num tom tão subserviente que só poderia representar a comunicação de uma grande organização no meio de um escândalo nas mídias sociais, o tweet então declarou que a “JAHA é editorialmente independente, mas não há desculpa. Investigaremos. Faremos melhor”.

Em 5 de agosto, a AHA publicou uma nota maior sobre o artigo de Wang, onde as tentativas de expiação continuaram. De acordo com a nota, a AHA “denuncia as opiniões expressadas no artigo e se arrepende de seu papel ao permitir que essas opiniões fossem promovidas”. Referindo-se ao periódico em que o artigo foi publicado, a nota reafirmou que “pode e vai fazer melhor”. A nota também certificou-se de observar que a AHA “acredita que muito mais — não menos — precisa ser feito para aumentar a diversidade, a equidade e a inclusão na ciência, na medicina e na cardiologia”.

Em um tweet com link para a nota da AHA, o atual presidente da estimada organização descreveu as opiniões de Wang como “retrógradas e factualmente incorretas”. Também afirmou que, caso você não tenha entendido a mensagem ainda, a AHA “acredita que a diversidade, a equidade, e a inclusão são essenciais ao futuro da medicina e da cardiologia”.

Em 6 de agosto — apenas quatro dias depois que o escândalo explodiu no Twitter — o artigo de Wang foi removido da revista. De acordo com um breve aviso publicado no website da revista, “o artigo contém muitos equívocos e citações incorretas, e que, juntas, essas imprecisões, declarações incorretas e leitura seletiva errada das fontes despem o artigo de qualquer validade científica”. Os leitores foram também informados que a “JAHA publicará uma refutação detalhada”. (A refutação ainda não apareceu online.)

No dia após esses eventos, mais uma nota condenando o artigo de Wang foi publicada, dessa vez pela Associação Americana de Faculdades de Medicina (trad. livre). Dizia a nota que “Aplaudimos a recente nota da Associação Americana do Coração (AHA) denunciando as opiniões expressadas no artigo de Norman C. Wang”. Se você está surpreso que uma organização supostamente respeitável publicaria uma nota aplaudindo a denunciação de outra organização das opiniões de um indivíduo, você não está só. Talvez a próxima nota aplaudirá a nota que aplaude a nota denunciando as opiniões de Wang.

Obviamente, não foram dias bons para o próprio Wang. Além de ser alvo de uma turba do Twitter, sendo denunciado por colegas e organizações profissionais, e vendo seu artigo na JAHA sendo retratado, ele acabou sendo removido de sua posição como diretor do Programa de Fellowship em Eletrofisiologia do Centro Médico da Universidade de Pittsburgh. Em 3 de agosto, um acadêmico experimente do Centro declarou que Wang foi removido “tão logo o artigo nos chamou a atenção”, sugerindo que houve pouca deliberação antes da decisão.

Então, o que exatamente Wang disse em seu artigo para causar todo esse ultraje? Teria chamado pela segregação racial em escolas médicas dos EUA, ou pela recusa à entrada de membros de certas raças? (Como é um americano de origem asiática, é improvável que Wang seja um supremacista branco.) Não: ele meramente defendeu que “todos que aspiram a ser profissionais da medicina e da cardiologia devem ser avaliados como indivíduos, com base em seus méritos pessoais, não com base em suas identidades raciais e étnicas”.

Wang nem mesmo chegou ao ponto de pedir pelo fim imediato de preferências raciais em seleções de estudantes para o curso de medicina. Em vez disso, ele tomou como base a decisão da Suprema Corte, no julgamento Grutter vs. Bollinger, para argumentar que tais preferências “deveriam ser gradualmente descontinuadas até seu fim no ano alvo de 2028”. Wang apoiou seus argumentos com amplos dados que mostram que os brancos e asiáticos têm menor probabilidade de serem aceitos em faculdades médicas americanas do que negros e hispânicos com as mesmas notas no Teste de Admissão a Faculdades Médicas (MCAT).

Note que esses dados são consistentes com os números relatados antes pelo economista americano Mark Perry. Ele notou que, entre estudantes com notas médias no MCAT que tentam entrar em cursos de medicina, os negros têm uma taxa de aceitação de 81%, enquanto os asiáticos têm uma taxa de aceitação de apenas 21%.

Wang também disputou a alegação de que fazer a força de trabalho médica mais ‘diversa’ necessariamente levaria a melhor serviço médico, uma linha de argumentação que causou especial ofensa em seus críticos. No entanto, mesmo se discordarmos das opiniões de Wang (e a ação afirmativa com certeza é algo a respeito do qual pessoas razoáveis podem discordar), a chuva de denúncias e severas sanções profissionais às que ele foi submetido parecem completamente injustificadas.

Em sua nota inicial sobre o artigo de Wang, o editor-chefe da revista disse que a “JAHA apoiará todos os esforços para corrigir esse erro, inclusive, mas sem limitação a isso, publicar pontos de vista alternativos”. Não teria sido suficiente simplesmente publicar alguns desses “pontos de vista alternativos” como comentários ao artigo? Dessa forma, teríamos sido poupados de todo o teatro “desconstruído” — pedidos de desculpas humilhantes, rituais de denunciação, promessas ocas de “fazer melhor” — e um debate instrutivo entre Wang e seus críticos poderia ter acontecido.

O caso Wang é só a batalha mais recente de uma continuada guerra cultural dentro da academia. (Antes, em junho, um escândalo muito similar aconteceu na revista alemã de química Angewandte Chemie.) A natureza dessa guerra cultural é tal que, toda vez que alguém toma a posição ‘incorreta’ em vários assuntos ditos polêmicos, essa pessoa se expõe não apenas a críticas, mas a ataques pessoais difamatórios e sanções destruidoras à sua carreira. Se questões importantes como a ação afirmativa não podem mais ser debatidas em periódicos acadêmicos, não está claro qual é, afinal, a função dessas revistas.

Publicado originalmente em RT, 8 de setembro de 2020.

Tradução: Eli Vieira. Com leves adaptações.

Noah Carl

Acadêmico independente do Reino Unido. Em 2019, foi demitido do St. Edmund's College, na Universidade de Cambridge, após campanha de estudantes e acadêmicos ativistas que desaprovavam seu trabalho acadêmico.

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Biólogo geneticista, professor, tradutor.