Ciência, Psicologia, Sexologia, Sociedade

É preciso enfrentar os tabus sexuais, não a pesquisa sobre sexo

É difícil fazer pesquisa, e é ainda mais difícil fazer pesquisa sobre sexo.(1)N. da T.: Aqui o autor faz referência ao campo da sex research, braço da sexologia que não deve ser confundido com os estudos de gênero (gender studies) ou estudos de sexualidade (sexuality studies). A sexóloga e neurocientista Debra Soh (2020, p.3) explica essa diferença ao escrever: “A pesquisa sobre sexo se refere a disciplinas científicas que usam métodos quantitativos, incluindo estatísticas, para entender a natureza do gênero e da sexualidade humana. (…) Quando feita de maneira adequada, a pesquisa sobre sexo é rigorosa, já que a ciência é projetada para eliminar vieses e variáveis enganosas (…). Os estudos de gênero tendem a usar métodos qualitativos, como entrevistas e autoetnografias (que são como entradas em um diário). Não é uma disciplina científica. Embora definitivamente existam estudiosos de gênero que são cuidadosos e rigorosos com seu trabalho, muitos outros não são fãs do método científico.” Para saber mais sobre o assunto, leia esta e esta tradução. O primeiro e mais óbvio desafio é o tabu que o sexo ainda carrega na maior parte do mundo. Após fazer esse trabalho por mais de 10 anos, vi em primeira mão as diferentes maneiras pelas quais ele incomoda as pessoas. Sexo é fascinante e importante, mas muitas pessoas parecem não querer falar sobre ele abertamente. Embora as atitudes estejam mudando (especialmente entre as gerações mais jovens), simplesmente não se fala sobre o último parceiro sexual como se fala sobre a última refeição.

Uma vez ultrapassado o obstáculo inicial de falar sobre sexo, percebi duas tendências específicas nas formas como a pesquisa sobre sexo provoca desconforto nos Estados Unidos. Uma parece estar ideologicamente alinhada às opiniões republicanas (“direita”), enquanto a outra parece estar ideologicamente alinhada às opiniões dos democratas (“esquerda”).

Qualquer pessoa envolvida com pesquisa sobre sexo conhece o desconforto dos republicanos. Os conservadores sociais há muito atacam os pesquisadores do sexo por uma ampla gama de razões. Nos Estados Unidos, eles reclamaram ser um desperdício o financiamento federal para a pesquisa básica sobre orientação sexual, tal como a pesquisa aplicada sobre prevenção do HIV/AIDS e a educação em saúde sexual. Eles se opuseram ao estudo sexual fora da comunidade LGBTI, em subculturas como as do BDSM ou do poliamor, sugerindo que tal pesquisa normalizaria o “desvio sexual”. Embora os alvos específicos de seu desprezo tenham variado, os conservadores sociais geralmente desaprovam a pesquisa sobre sexo porque ela muitas vezes tenta entender o sexo fora da estrutura convencional com a qual eles se sentem confortáveis: atividade heterossexual com um mesmo parceiro.

O antagonismo dos democratas é provavelmente menos familiar para a maioria dos envolvidos com a pesquisa sobre sexo. Afinal, grande parte dela está ideologicamente alinhada com esse campo político. Os liberais sociais neste país tendem a ter em alta conta a comunidade LGBTI, apoiar subculturas como as do BDSM e poliamor, e rejeitar ideais heteronormativos. Mas tem havido exemplos de resistência por décadas. Desde a década de 1990 os cientistas vêm estudando as bases genéticas da orientação sexual — e alguns democratas protestaram contra essa pesquisa. Eles argumentam que a descoberta de um “gene gay” (mais provavelmente um conjunto de genes que podem contribuir para a orientação sexual) poderia ser usado por pais homofóbicos para abortar ou modificar geneticamente crianças que viriam a ser gays.(2)N. da T.: Leituras altamente recomendadas sobre o assunto são esta e esta tradução, e este e este ensaio.

Mais recentemente, algumas pessoas da esquerda condenaram veementemente as pesquisas que implicam a excitação sexual na trajetória de desenvolvimento de algumas mulheres transexuais.(3)N. da T.: Mais especifica e explicitamente, as autoginefílicas. Estão preocupados com o fato de que pesquisas sugerindo motivações sexuais para algumas mulheres trans irão desfazer anos de trabalho árduo que ajudaram em sua aceitação na sociedade. Essa aceitação se deve em parte à crença agora generalizada de que as pessoas trans “nasceram no corpo errado”. Com razão, os liberais sociais nos Estados Unidos temem que o desvio dessa narrativa dominante seja prejudicial — lembre-se de que sexo ainda é um tabu, e os conservadores sociais não hesitam em encontrar motivos para desaprovar as pessoas LGBTI e negar-lhes direitos. Um meio de comunicação conservador se apropriou indevidamente da evidência de que algumas mulheres trans são sexualmente motivadas e passou a argumentar que elas na verdade são apenas homens com uma doença mental, que representam um perigo para mulheres cisgênero (não-trans) e que não devem ser permitidas em banheiros femininos.

Entrei neste campo minado político com a minha própria pesquisa e estou aprendendo a avaliar suas implicações para mim e para aqueles com quem tive a sorte de estudar. No início deste ano, publiquei um estudo sobre a sexualidade dos furries, que são fãs de personagens de cartoons, como o Pernalonga ou o Mickey Mouse. Furries formam uma comunidade talentosa e criativa que produz arte, mídia e histórias impressionantes com personagens de seus próprios projetos. Embora grandes convenções para furries como a Anthrocon recebam mais atenção na mídia, os furries costumam ser encontrados socializando na Internet. Muitos criam versões cartunizadas deles próprios, chamadas fursonas, e alguns usam fantasias de animais chamadas de fursuits.

Como na mídia e na cultura popular os furries foram retratados como motivados sexualmente, eles são frequentemente e injustamente ridicularizados na Internet como um exemplo de “desvio sexual”. Como resultado, talvez não seja surpreendente que haja intensa controvérsia sobre quantos deles possuem motivações sexuais e até que ponto o sexo desempenha um papel em ser um furry.

Meu estudo se tornou alvo de indignação moral por parte dos republicanos porque ele descobriu que muitos (mas não todos) dos furries relataram alguma motivação sexual e atração sexual por animais cartunizados, com muitos também fantasiando sexualmente sobre ser um deles. Infelizmente, esses resultados foram anunciados por um terapeuta licenciado, com ideologia socialmente conservadora, como um exemplo de como os furries revelarão seu “lado desviante” (evidentemente por tê-lo normalizado em minha pesquisa) e virão a predar crianças.

Suas preocupações, embora completamente infundadas e não baseadas em dados reais do estudo, são preocupantes porque aumentam o estigma generalizado que os furries já enfrentam. No outro extremo do espectro político, minha pesquisa foi criticada por alguns membros da comunidade furry, com ideologia socialmente liberal, como problemática; ela legitimaria a noção preconceituosa de que furries são “sexualmente desviantes”.

Há uma preocupação compreensível entre os furries, assim como entre as pessoas trans, de que a sociedade os aceitará menos se alguns deles forem sexualmente motivados. E é verdade que meu estudo descobriu que muitos furries expressavam motivação sexual e atração sexual por animais cartunizados. Mas a motivação sexual e a atração sexual por animais cartunizados não implicam que haja algo de errado com esses furries ou que eles sejam menos merecedores de aceitação.

Em vez de fingir que esses furries com motivação sexual não existem ou envergonhá-los para que deixem de existir, por que não trabalhar conjuntamente para desmantelar os tabus que os impedem de serem totalmente aceitos na comunidade furry e na sociedade em geral? Furries com motivação sexual e sem motivação sexual deveriam trabalhar juntos — não uns contra os outros — para promover aceitação e compreensão. Pesquisadores dentro e fora da sexologia deveriam trabalhar juntos e com os furries para o mesmo objetivo. Com esse espírito, estou colaborando com furries e pesquisadores de fandom da FurScience em um esforço para entender melhor o papel e a importância do sexo nesta comunidade.

Temos um longo caminho a percorrer como pesquisadores do sexo. Não apenas devemos superar o desconforto geral que a maioria das pessoas sente em relação ao sexo, mas também devemos superar as tendências de desconforto que são específicas entre republicanos e democratas. Acho fácil persistir em face da direita e sua condenação da pesquisa sobre sexo como tendo pouca importância ou sendo promotora de “desvios sexuais”. A maioria de nós, pesquisadores do sexo, não vê a diversidade sexual como um desvio sexual. Em vez disso, valorizamos as diferenças de expressão sexual em todas as suas formas, desde que sejam saudáveis, e pensamos que estas não são apreciadas o suficiente na sociedade.

Acho, por outro lado, muito mais difícil navegar pelas preocupações da esquerda, especialmente à luz do impacto muito real que a pesquisa sexual pode ter em grupos menos convencionais, sejam eles membros da comunidade LGBTI ou furry. Certamente não quero que minha pesquisa seja mal utilizada para ataques e ridicularizações. Não tenho nenhum objetivo nobre de normalizar “desvios sexuais” para perturbar os republicanos, nem de patologizar os grupos que estudo para perturbar os democratas. Em vez disso, meu objetivo é entender a verdade sobre a sexualidade de diversos grupos de pessoas, com a esperança de que a diversidade sexual seja mais bem aceita e tratada na sociedade.

Devemos trabalhar para acabar com o desconforto com o sexo, não com a pesquisa sobre sexo. Dessa forma, não importa nossa ideologia política, poderemos celebrar a diversidade sexual em vez de negá-la.

Original em Queer Majority, março de 2020.

Tradução: Ágata Cahill

Revisão: Eli Vieira

Leves adaptações foram feitas para fins de clareza.

Kevin Hsu
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Kevin Hsu é professor assistente de psicologia clínica na Pennsylvania State University, localizada em Abington, Massachusetts. Sua pesquisa se concentra na sexualidade humana, mas ele está especialmente interessado em examinar a diversidade sexual que vai além das orientações tradicionais.

Editora sênior do Xibolete e autora at | + posts

Notas

Notas
1 N. da T.: Aqui o autor faz referência ao campo da sex research, braço da sexologia que não deve ser confundido com os estudos de gênero (gender studies) ou estudos de sexualidade (sexuality studies). A sexóloga e neurocientista Debra Soh (2020, p.3) explica essa diferença ao escrever: “A pesquisa sobre sexo se refere a disciplinas científicas que usam métodos quantitativos, incluindo estatísticas, para entender a natureza do gênero e da sexualidade humana. (…) Quando feita de maneira adequada, a pesquisa sobre sexo é rigorosa, já que a ciência é projetada para eliminar vieses e variáveis enganosas (…). Os estudos de gênero tendem a usar métodos qualitativos, como entrevistas e autoetnografias (que são como entradas em um diário). Não é uma disciplina científica. Embora definitivamente existam estudiosos de gênero que são cuidadosos e rigorosos com seu trabalho, muitos outros não são fãs do método científico.” Para saber mais sobre o assunto, leia esta e esta tradução.
2 N. da T.: Leituras altamente recomendadas sobre o assunto são esta e esta tradução, e este e este ensaio.
3 N. da T.: Mais especifica e explicitamente, as autoginefílicas.